358 - uma nova casa para artistas de São Paulo - MISTURA URBANA

358 – uma nova casa para artistas de São Paulo

358: São números que cumprem a ordem numérica da rua. Sinalizam a estrutura de uma antiga escola Liceu Siqueira Campos – desativada anos atrás. O local sempre  foi uma zona de trocas, experiências e fluxo grande de pessoas, isso é uma coisa viva até hoje.

Dentro dela, hoje, artistas desenvolvem o seu trabalho e geram um movimento de troca e de soma, no qual linguagens distintas se tocam num elo em comum: a arte. Compartilhando, discutindo e dividindo ideias, se cria no espaço um ambiente de realizações múltiplas.

Com a presença de novas pessoas abriu-se um novo ciclo, foi uma necessidade natural delas se organizarem, é um processo orgânico e trabalhoso e, hoje, o 358 e suas 23 salas abrigam 34 artistas com a imaginação correndo solta.

Confira abaixo nossa entrevista.

 

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Quem faz parte hoje em dia do 358 e quem já passou por lá?

Popoke: Somos artistas que iniciaram um movimento de melhoria do espaço comum, e que pouco a pouco perceberam que com união e força poderiam ir alem dos corredores do prédio.
O 358 é um movimento novo, e ele está por hora ligado ao espaço que ocupamos. Faz menos de 1 ano que existe esse movimento. Aqui já passaram muitos artistas de todas as áreas, mas o movimento não havia iniciado e o espaço era mais tratado como um deposito dos artistas do que ateliês ativos, como são agora.
Evandro Angerami: Artistas como Guilherme Kramer e Ozi já passaram pelo espaço. Desde 2010 existe um desejo de transformar o espaço, mas isso tomou força e de fato aconteceu com a chegada das pessoas que estão na formação atual, responsáveis pela iniciativa 358.

 

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Como se dá o movimento de troca entre os artistas? Já que eles são muitos e distintos?

Felipe G.: A troca entre artistas é baseada no convívio. O 358 tornou-se uma espécie de residência artística, não existem limites para a troca de experiências, a diversidade torna o intercâmbio interessante.
Renan Cruz: Tudo acontece de forma orgânica, necessidades e obras do acaso.
Popoke: Alguns exemplos: todos precisamos de fotos dos nossos trabalhos e para isso recorremos ao Estúdio Gangorra que trabalha com fotografia. Tem também a marcenaria, que é a sala de alguns montadores de exposição de arte e um marceneiro. Quase todos já recorreram a eles para resolver algum trabalho ou até mesmo pra encomendar um móvel sob medida. Costumamos dizer que se um diretor de arte vier aqui, consegue encontrar grande parte dos seus fornecedores, por isso vemos essa troca como nosso maior potencial.
Estúdio Gangorra: Talvez por estarmos em um colégio a sensação que temos é de termos recreios espontâneos. Em determinado momento passeamos pelo prédio para dar um respiro, entramos em uma sala, trocamos ideias, as vezes junta um grupo, falamos sobre os trabalhos em andamento, opinamos nos projetos e pedimos orientações uns aos outros, sejam elas técnicas, práticas ou conceituais. Existe a troca sutil também, de influenciar e ser influenciado. Nós (do Estúdio Gangorra) nunca havíamos usado spray, nosso trabalho é focado na fotografia, mas muitos artistas aqui utilizam esse material, ter esse contato fez com que experimentássemos em um projeto que desenvolvemos chamado Iracema. A partir daí também nos interessamos pelo stencil.
O Cacto e Rosa: Acho que houve uma “contaminação” natural. Imagina estar num ambiente com tanta diversidade artística, com tantas personalidades, e com pessoas abertas nesse processo de construção, então é exatamente isso, orgânico, deu liga, claro que temos nossa produção, perspectivas e objetivos individuais, mas estamos hoje falando a linguagem desse movimento, inserindo uns aos outros nas oportunidades que aparecem, tentando nos fortificar como grupo, dentro desse universo de criação que é pra nós o 358.
Ermãos Monjon: O ambiente cria esse diálogo, te dá a experiência desse convívio com as pessoas e suas habilidades individuais que fortalecem o grupo como um todo. Basta você ter a disposição de bater na sala ao lado e ver o que seu vizinho está fazendo.

 

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Além da pintura com as mais diferentes técnicas e superfícies, que outros tipos de expressões artísticas acontecem no 358?

Fabio Q: Teatro, fotografia, literatura e escrita criativa…
Evandro Angerami: Carpintaria, escultura, brinquedos educativos…
Popoke: Cenografia, marcenaria, pintura artística, gravura, graffiti.
Victor Garcia Monocrew: serigrafia, monotipia ,design, ilustração, direção e produção e uma ampla variedade de projetos criativos.

 

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O atual 358 costumava ser uma escola. Pensando nisso, existe algum trabalho de integração com escolas da região?

SAO: No momento não, mas existe um projeto nesse caminho, adiamos o início dele pois preferimos não começar isso de forma emotiva e sim racional, com base, para não ser mais um projeto qualquer com foco em si mesmo.
Fabio Q: Desde que cheguei no prédio vejo que um dos assuntos que sempre vem à tona é o do quão significativo é estarmos em um espaço que um dia funcionou como escola. A troca de ideias que tocam nesse ponto de integração, não apenas com as escolas mas com a comunidade local, como os imigrantes por exemplo, estão sempre rolando. Mas existem muitas demandas que exigem muito esforço pra manter o prédio em ordem e com o mínimo de estrutura pra funcionar, o imóvel ficou muito tempo parado e antes desse movimento acontecer pouca coisa havia sido feita para melhoria dele, há muito trabalho pela frente.

 

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Falem um pouco sobre a mistura visual que se dá em cada pedaço do espaço

SAO: 358 é uma pessoa cuja a beleza interior aos poucos está transbordado para o exterior.
Victor Garcia Monocrew: É um lugar muito rico pela sua diversidade, com salas de aula transformadas em ateliês transbordando informação.
Popoke: O prédio também tem algumas deficiências na manutenção, o aspecto um pouco desgastado, mas aos poucos estamos trazendo vida para os corredores, nos mobilizamos individualmente ou em grupo e hoje existem muitas plantas, iniciamos uma biblioteca, temos uma sala de estar e planejamos ter uma horta.
Evandro Angerami: É muito gostoso andar pelos corredores, e no meio dessa mistura visual encontrar as pessoas trabalhando nos ateliês com as portas abertas. Cria-se uma atmosfera convidativa à troca, ao convívio social/artístico e ao cultivo de grandes amizades, que sem dúvida transcendem o espaço físico do prédio. Se imaginarmos cada integrante, cada espaço como uma cor diferente, estamos diante de um universo multicolorido onde as combinações cromáticas são infinitas. Respiramos arte.
O Cacto e Rosa: Nos corredores encontramos telas expostas, plantas, portas estilizadas, uma mescla interessante, traduzindo um pouquinho do universo de cada um, ainda distante daquilo que gostaríamos, aos poucos estamos mudando e transformando o local.

 

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Vocês abrem ao público as experimentações ou fazem eventos, exposições, etc – de quando em quando rola um ateliê aberto?

Evandro Angerami: Sim, para 2016 estamos planejando três eventos do Atelier Aberto, a primeira do ano será no dia 09 de Abril – das 15 às 22h entrada gratuita.
Popoke: O Atelier Aberto é o momento de maior abertura com o público, não é um momento de produção nem inspiração, é o momento onde todos nos preparamos para receber amigos e mostrar nosso espaço e o potencial que ele tem. Estamos trabalhando e nos organizando para temos uma agenda que inclua mais workshops, palestras, aulas e oficinas.
Fabio Q: Nós não temos plena autonomia sobre o espaço, tudo o que fazemos tem que ter aval dos proprietários, a abertura ao público passa por esse processo também. Como eles disseram acima, outras atividades além do Atelier Aberto estão começando a acontecer.

 

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O que já surgiu de interessante dessa mistura de artistas que rola por aí? Quais colaborações já surgiram?

Popoke: Tivemos dois momentos externos muito especiais, o primeiro foi a criação de uma exposição beneficente que aconteceu no Red Bull Station, cada artista doou uma obra e a renda foi revertida para o projeto Beaba do Câncer, também convidamos outros artistas que não fazem parte do 358 para participar. O segundo momento foi a participação no evento CineParque da Cinemateca onde pela primeira vez criamos uma forma onde todos puderam expor seus trabalhos, com preços mais acessíveis, juntos.
Ermãos Monjon: Vale lembrar que no Red Bull Station, foram 6 horas de evento mais de 40 artistas envolvidos, 80 obras doadas que reverteram uma quantia de R$24,000,00 para o projeto Beaba do Câncer. Tivemos também a premiére do filme Pont Avl que rolou simultaneamente em vários lugares do mundo (França, Inglaterra, Estados Unidos, Espanha e etc) e no Brasil foi aqui 358.

 

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Qual a importância, a soma que traz para o bairro do Cambuci e para a cidade de são paulo esse tipo de coworks

Fabio Q: Mais importante do que nossa produção artística tem sido o processo de gerenciamento horizontal e as iniciativas de melhorarias do nosso entorno, produzindo uma experiência de transformação pessoal e coletiva. Existem grandes demandas em pauta na sociedade de hoje, como por exemplo, repensar a gestão (pública ou privada), ou como é possível fazer a economia ser menos predadora. Essas demandas precisam e estão sendo experimentadas em várias áreas sociais, na arte e na cultura não pode ser diferente, isso ajuda a fomentar ações e cria novas maneiras de pensar a vida.

 

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Abrem para novos artistas que querem entrar no 358? Como acontece isso?

Estúdio Gangorra: Muitos artistas já passaram pelo prédio. Alguns saíram mas continuam presentes por lá, visitando, trazendo novidades, compartilhando. A configuração 358 é algo recente. Hoje quem tem ateliê não tem vontade de sair. Nos ateliês abertos convidamos alguns artistas de fora para mostrar seus trabalhos, fazer performance, música.
O Cacto e Rosa: Quem controla a disponibilidade das salas são os donos do imóvel, no momento creio que todas as salas estejam ocupadas, quando eventualmente uma sala vaga, procuramos indicar artistas. Hoje a procura por uma sala aumentou, graças ao que estamos semeando nesse espaço.
Fabio Q: o Renan (Monjon) disse uma frase que sintetiza bastante isso: “você pode estar no prédio e não estar com o prédio”, isso porque qualquer pessoa pode alugar uma sala no prédio quando estiver disponível, mas interagir e fazer parte do movimento é uma escolha pessoal.

 

Quais dificuldades encontraram no meio do caminho?

O Cacto e Rosa: É relativamente novo esse movimento, estamos nesse processo de nos firmarmos como grupo, nosso maior foco é a divulgação do nosso trabalho pro maior número de pessoas, isso não é tão simples. Nesse momento está acontecendo através de redes sociais, alguns eventos e um site que estamos desenvolvendo. Vimos resultados muito positivos, mas tudo ocorre gradativamente, e as nossas necessidades as vezes caminham um pouco mais rápido! (rsrs).
SAO: As dificuldades de trabalhar em grupo sem um líder, todos acham isso muito lindo mas, quando você tem que abrir mão de algo para o bem coletivo alguns acabam querendo voltar ao sistema Papai/Mamãe onde sempre tem um líder mostrando o “caminho”.

 

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Qual o futuro do 358? Onde querem chegar? O que querem trazer para o mundo com essa união de artistas?

Ermãos Monjon: Estamos trabalhando para ter um espaço com atividades culturais e troca de conhecimento e isso envolve uma responsabilidade grande da nossa parte, precisamos nos organizar internamente para poder nos relacionar com o externo, hoje aprendemos a cuidar e dividir nosso espaço, é um momento de amadurecimento pessoal e de identidade.
Popoke: O futuro no nosso ponto de vista é incerto mas acreditamos que o 358 é um movimento possível em todos os espaços, a vida urbana e o sistema capitalista nos cegou na forma que nos relacionamos, nos tirou a ideia de pertencimento. Acreditamos que unindo forças e transformando nosso microcosmos podemos incentivar outros espaços a tomar iniciativas, fomentar a ideia de comunidade e cuidado dos espaços em comum com o mesmo carinho que cuidamos do nosso espaço.
O Cacto e Rosa: Queremos dividir isso com pessoas, apresentar a elas essa pluralidade, fazer da arte um meio possível para se viver, se comunicar, tocar as pessoas. A troca é sempre o mais importante. Soma conhecimento pra um, criação pra outro e faz engrenagem manter-se em movimento.
SAO: Queremos chegar onde o Mercado da “Arte” não chega.
Fabio Q: Entre planos e incertezas você pode acompanhar-nos nas redes sociais e através do nosso site e ficar por dentro do que o futuro reserva.

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Lila Varo

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Lila Varo, é produtora de conteúdo, editora do Mistura Urbana e mais um continente a sua escolha. lila[@]misturaurbana.com