Exposição "Jogando com Ben Patterson" na Galeria Bolsa de Arte de São Paulo - MISTURA URBANA

Exposição “Jogando com Ben Patterson” na Galeria Bolsa de Arte de São Paulo

PB Pega Varetas

Antes de uma exposição, “Jogando com Ben Patterson”, coletiva que a sede paulistana da Galeria Bolsa de Arte de Porto Alegre recebe a partir de 27 de outubro, às 19h, é um jogo. Um jogo cheio de humor e vida, jogado entre amigos. Entre eles, o anfitrião Ben Patterson, artista norte-americano radicado na Alemanha e um dos nomes icônicos do grupo Fluxus, uma comunidade artística que conta com mais de meia década de história e com uma rede de artistas que se espalhou ao redor de todo o mundo. Junto a Patterson, importantes nomes da performance, arte postal, pintura e escultura brasileiros, todos amigos e interlocutores do artista: Cristina Barroso, Dudi Maia Rosa, Francisco Klinger Carvalho, Guto Lacaz e Paulo Bruscky.

A responsável pela condução desse jogo é a curadora alemã Karin Stempel, uma das maiores especialistas do mundo em arte latino-americana, curadora duas vezes da representação alemã para a Bienal Internacional de São Paulo e, até 2010, reitora da Academia de Arte de Kassel.

Stempel propõe para essa reunião a apresentação da história da obra de Patterson, mas também, uma estrutura híbrida de contextos geográficos distintos, cronologias fragmentadas, com fendas no espaço e no tempo e um cruzamento geracional. Para isso, além de documentos originais dos chamados concertos apresentados pelo artista (termo que Patterson empregava para os happenings e performances que realizava numa época em que essas manifestações sequer haviam sido catalogadas pelos críticos e historiadores) haverá obras de artistas brasileiros que com ele se apresentaram – se corresponderam, criaram diálogos sobre vida e obra – instâncias que os membros do grupo Fluxus julgavam impossíveis separar. As performances, reunidas em dois dias, acontecem no dia 29/10, dois dias após a abertura, e no dia 31/10, com um dia inteiro dedicado às performances.

Fluxus foi antes um estado de espírito do que um movimento coeso, formado por um grupo de pessoas de diversos países que viviam a música, a poesia e as artes plásticas. “O Fluxus reuniu várias pessoas que pensam, sentem e agem da mesma maneira – amigos. É como um grande barco no qual podemos dar um passeio gostoso”, diz Patterson. O termo, que também deu nome a uma publicação, vem do latim e significa fluxo, movimento, escoamento. Seus integrantes buscavam a quebra de barreiras e convenções, unindo arte e cotidiano, tendo como uma grande influência os dadaístas.

Ben Patterson é um dos membros fundadores do Fluxus. Ele organizou no ano de 1962 junto a George Maciunas – artista que cunharia o nome do grupo – o Wiesbadener Festspiele Neuester Musik, festival na cidade alemã na qual residia e estudava música. Entre os artistas presentes nos concertos de música experimental que integravam o festival estava ninguém menos que John Cage, conhecido pelas composições não-narrativas, que incorporavam os ruídos do meio. Também integravam esse primeiro momento do Fluxus nomes da arte do século XX como Nam June Paik, Robert Filliou, Wolf Vostell, Willem de Ridder, Ben Vautier e Arthur Köpcke.

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Na 17ª Bienal de 1983, com curadoria de Walter Zanini, o Fluxus foi um dos grandes destaques, tendo ocupado o térreo do prédio com performances, obras e documentos dos artistas. Ben Patterson, Ben Vautier, Wolf Vostell e Dick Higgins realizaram peças suas e de outros colegas de grupo que, mais uma vez, buscavam novos conceitos de arte, conduzidos pela ideia da participação do público e de que as ações artísticas estão ao alcance de qualquer pessoa.

A exposição na Galeria Bolsa de Arte não se pretende uma retrospectiva do Fluxus, mas terá um caráter amplo. Irá além das obras de Patterson, exibindo uma documentação abrangente de Performances-Fluxus e Filmes-Fluxus que fazem parte das origens do movimento. A mostra será aberta com uma Noite-Fluxus e será seguida, no sábado, de um dia dedicado às apresentações, nas quais Patterson irá executar ao vivo algumas de suas peças mais marcantes, como a performance Carmen, na qual a música da ópera e rosas se combinam– com a participação de artistas amigos, estudantes e do público.

Também estarão presentes trabalhos de séries como “What’s on my Mind?” (O que está na minha mente?), “You Can Observe a Lot just by Watching” (Você pode observar muito apenas contemplando), “Old Fluxus Salame” (O velho salame Fluxus, parte de uma instalação na qual o artista faz um salame de mármore para cada membro do grupo), e a instalação “Museum for the Subconcious” (Museu do Inconsciente), que já foi realizada na Namíbia, em Israel, na Argentina, nos Estados Unidos, em Wiesbaden e em Tóquio.

Entre os artistas amigos, estão Guto Lacaz e Bruscky. Guto ganhou de presente em 1992 uma performance carregada de humor e subversão chamada Lagoa (no original, Pond), um jogo para 8 performers que reagem de acordo com os movimentos de sapos de corda mecânica sobre um tabuleiro. Apresentada no ateliê de Guto, a performance é um elo muito apropriado para a intersecção entre o trabalho dos dois e sua maquete e instruções estarão em exibição na mostra na Bolsa de Arte. Estarão presentes registros de performances e objetos e Guto Lacaz ficará a cargo de alguns happenings na semana de abertura.

Assim como o link estabelecido entre Lacaz e Patterson, todos os demais integrantes da mostra possuem conexões com o artista “anfitrião”. Francisco Klinger, amigo pessoal de Ben, traz em sua obra a improvisação como método de trabalho e, para representar essa ligação entre os trabalhos de ambos, a escultura “Esto hubiera podido haber sido Obstruction, de Man Ray, pero no es, o la solución instantánea hecha en cinco minutos mientras estaba en camino al aeropuerto”, concebida sob essa perspectiva, será apresentada na galeria. Dudi Maia Rosa também apresentará pinturas que dialogam com a exposição e trabalhos que ganhou de presente do artista, um amigo feito há mais de três décadas.

Cristina Barroso, também amiga próxima e interlocutora do artista, irá apresentar trabalhos em que mapas são figuras centrais, dialogando com a performance World Weather, que Ben apresentou em uma coletiva da qual Cristina também fazia parte. Tanto a performance World Weather quanto as dos demais artistas, serão destaques da exposição, seja em vídeos seja em documentos históricos, como projetos e registros. A mostra de vídeos presentes na exposição contabiliza ao todo 24 horas de material audiovisual, a serem exibidos em diversos monitores.

O trabalho de Paulo Bruscky, artista convidado que chegou a se corresponder com outros membros do grupo Fluxus, dialoga diretamente com Patterson no que concerne ao jogo, à lógica e ao acaso combinados para o caráter transgressor da ordem presente em suas obras. Dele, serão exibidas obras como “Homenagem ao Fluxus” (no qual diversas partes correspondentes aos cortes de um bovino recebem nomes dos artistas do grupo), performances e registros delas, como a icônica “O que é Arte, Para que Serve?”, realizada pela primeira vez em 1978 e os vídeos e instalações do Projeto “Pega Varetas”. A instalação “Fogueira de Gelo”, composta de blocos de gelo coloridos e com sabor, anuncia na entrada da galeria a grande festa que se inicia no dia da abertura. O artista também participa das performances da semana de abertura.

Sobre a curadora:
Karin Stempell nasceu em Leuna, na Alemanha, em 1952. De 1971 a 1976 estudou licenciatura em história da arte, lieratura alemã moderna e filosofia nas universidade de Marburgo, Frankfurt e Heildelberg. Foi duas vezes curadora da representação alemã para a Bienal de São Paulo, em 1996 junto do artista Karl Emanuel Wolff e, em 2008, junto de Mischa Kuball. Especialista em arte da América Latina, em especial arte brasileira, foi curadora de diversas exposições, como “Quase Nada aus Brasilien”, com obras de Karin Lambrecht, Cassio Vasconcelos, Lia Menna Barreto e Marco Gianotti. Foi co-diretora de um documentário sobre o pintor americano Cy Twombly, premiados em Roterdam e Montreal em 1988. Foi co-curadora para o conceito do edifício do Reichstag (prédio que abriga o parlamento federal da Alemanha). De 2000 a 2010 foi reitora da Escola de Arte de Kassel, na Alemanha e desde 2007 é membro do Conselho da Academia de Belas Artes de Munique.

SOBRE OS ARTISTAS:

BEN PATTERSON: Nasceu em Pittsburgh, Pensilvânia, 1934. Artista visual e músico americano, co-fundador do movimento Fluxus nos anos 60 e um dos poucos representantes deste ainda em atividade. Em 1956 fez Bacharelado em Música na University of Michigan. Em 1951 fez um concertosolo de contrabaixo, o qual foi televisionado. Até a década de 1960, era conhecido como integrante de várias orquestras sinfônicas no Canadá, EUA e na Alemanha. Em 1960 mudou-se para Colônia, onde dedicou-se à cena musical contemporânea. Em 1962, Patterson se apresentou em outros lugares além de Colônia, entre estes Viena, Veneza e Paris. Ainda em 1962, junto com George Maciunas, organizou o Wiesbadener Festspiele Neuester Musik – no Museu da Cidade de Wiesbaden, mais tarde conhecido como o primeiro festival Fluxus. Também em 1962 muda-se para Paris, onde publicou entre outros o livro “Methods and Process”. Junto a Robert Filliou apresenta os Poemas de Quebra-Cabeça, na Galeria Filliou. Entre 1963, muda-se para Nova York e se concentra na administração da Orquestra Sinfônica de New Age, na gestão do instituto de relações culturais em Nova York, na gestão da Negro Ensemble Company e na direção da Fundação Pro Música. No ano de 1983 participa da Bienal de São Paulo. Em 1988 Patterson abriu sua primeira exposição individual, An Ordinary Life, composta de assemblages e instalações, na Emily Harvey Gallery, em Nova York, com trabalhos que mantém características do Fluxus. Em 2014 completou 80 anos com homenagens de diversos museus de cidades ao redor do mundo, entre eles Zabreg, Hannover, Berlim, Amsterdam, Tóquio e Chicago.

GUTO LACAZ: Nasceu em São Paulo – SP, 1948. É arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São José dos Campos e artista plástico. Construiu seu percurso artístico no cruzamento entre arte, ciência numa perspectiva de embate e questionamento do sistema produtivo industrial. Concebe dispositivos que repetem ad infinitum tarefas quixotescas e propõe performances e objetos que beiram o absurdo revelando com humor e ironia a obsessão produtivista da sociedade contemporânea.
Conheceu Ben Patterson na Bienal de 1983 e ficaram amigos.

CRISTINA BARROSO: Nasceu em São Paulo, Brasil. Estudou arte e filosofia, nos EUA. Viveu e trabalhou em São Paulo, San Francisco, Milão e Berlim. Atualmente a artista vive em Stuttgart. Mapas geográficose topografias fotográficas de cidades são a base para cor e textura nos seus trabalhos. Seu envolvimento profissional e de amizade com Ben Patterson se inicia por meio de sua galeria, a Schoppenhauer, que representou por muito tempo ícones do Movimento Fluxus, como Ben Vautier, Daniel Spoerri, e o próprio Patterson.

PAULO BRUSCKY: Nasceu em Recife – PE, 1946. Artista multimídia, poeta. Na década de 1960, iniciou pesquisa no campo da arte conceitual e, a partir de 1970, desenvolveu pesquisas com xerografias. Em 1973, atuou no Movimento Internacional de Arte Postal, sendo um dos pioneiros no Brasil. Organizou duas exposições internacionais de arte postal no Recife nos anos de 1975 e 1976, sendo esta última fechada pelos militares brasileiros. Realizou 30 filmes de artistas e videoarte entre 1979 e 1982, e começou a produzir videoinstalações em 1983. Criou, em 1980, o xerox-filme com base em sequências xerográficas. Com a Bolsa Guggenheim de artes visuais recebida em 1981, residiu por um ano em Nova York. Nesse ano, expõe na sala especial sobre arte postal montada na 16ª Bienal Internacional de São Paulo. Em
2004, seu ateliê é integralmente transferido do Recife para São Paulo, sendo remontado em uma das oito salas especiais da 26ª Bienal Internacional de São Paulo. Paulo Bruscky por muitos anos trocou correspondência com integrantes dos grupos Fluxus e com Guto Lacaz.

FRANCISCO KLINGER CARVALHO: Nasceu e Óbidos – PA, 1966. Em 1986 mudou-se para Belém do Pará. Em 1997 obteve bolsa para realizar estudos de pós-graduação na Alemanha. Na Kunstakademie Düsseldorf teve como professor o escultor britânico Tony Cragg. Em 2000 retornou ao Brasil para desenvolver o projeto “Ajuri, a estética utilitária do caboclo amazônico”, trabalho de pesquisa e produção poética que resultou no documentário “Caminhos das Artes”, realizado pela TV CULTURA. Em 2001 retornou para a Alemanha,
fixando residência na cidade de Wiesbaden. Em 2003 morou em Porto Alegre – RS e entre 2009 e 2011 trabalhou como professor convidado na Universidad Nacional da Colômbia. Em 2011 regressou novamente a Europa. Atualmente, trabalha e vive entre as cidades de Wiesbaden e São Paulo – BR. Sua relação com Ben Patterson se iniciou através da galeria que o representa, Galerie Hafemann, localizada na cidade de Wiesbaden, berço do movimento Fluxus.

DUDI MAIA ROSA: Pintor e desenhista, apresentou sua primeira exposição individual em 1967, na Galeria Átrium (São Paulo – SP). Desde então, realizou inúmeras exposições individuais e participou de coletivas importantes como: Panorama da Arte Atual Brasileira, no Museu de Arte Moderna (São Paulo), em 1973, 1986, 1989, 1993; Bienal Internacional de São Paulo, 1987 e 1994; Bienal de Johanesburgo (África do Sul), 1995; Mostra do Redescobrimento: Brasil 500 Anos, no Pavilhão da Bienal de São Paulo, 2000, 5ª Bienal do Mercosul (Porto Alegre, RS), 2005, e Brasiliana: Moderna Contemporânea, no MASP (São Paulo), 2006. Apresentou individuais no Instituto Tomie Ohtake, em 2008; na Galeria Millan, em 2012; e no
Centro Universitário Maria Antônia, em 2013, todas em São Paulo. No iníco dos anos 80, assim como Guto Lacaz, ganhou um presente de Ben Patterson: um desenho, como parte de uma performance.

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Serviço

Jogando com Ben Patterson
Abertura: 27 de outubro de 2015, terça, das 19h às 22h
Performances: 29 de outubro, a partir das 19h, 31 de outubro, sábado, a partir das 12h.
Exposição: 27 de outubro a 23 de dezembro de 2015
Endereço: Rua Mourato Coelho, 790
Horários: Seg. a sex., das 10h às 19h
Sábado: 11h às 17h
GRÁTIS

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Natt Naville

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Natt Naville é jornalista e gosta de tudo que envolve o universo da comunicação. Entre palavras e histórias: Música. Música para tocar, para ouvir e dançar. Editora do Mistura Urbana, gosta de criar, recriar e se reinventar. Vive no paraíso azul da Grécia.