Centro Cultural São Paulo recebe exposição "Kalunga" - MISTURA URBANA

Centro Cultural São Paulo recebe exposição “Kalunga”

Performance Kalunga 2_créditos Luara Del

Inspirado nos ritos de morte a partir do olhar das religiões de matriz africana, o projeto Kalunga recria os rituais de passagem de dois nomes icônicos da resistência à ditadura militar brasileira – Helenira Rezende e Sr. João Breno – com intuito de suscitar a reflexão sobre a dualidade da existência usando como pano de fundo as temáticas negra, de periferia e ideais políticos de coalisão. A exposição utiliza múltiplos formatos artísticos para construir sua narrativa, como fotografia, vídeoarte, dança e grafitte. Gratuita e aberta ao público, a mostra idealizada pela dançarina e performer Ana Beatriz Almeida ocupará o vão livre do CCSP – Centro Cultural São Paulo, entre 17 de outubro e 12 de dezembro. Na abertura da exposição, a idealizadora do projeto, Ana Beatriz Almeida, realizará uma performace às 17h.

Kalunga surgiu a partir de vivências pessoais de Ana Beatriz Almeida que, em paralelo às suas pesquisas sobre a história de luta e segregação do negro no país, usou seus estudos junto à Irmandade da Boa Morte para formatar o projeto. O tradicional grupo de mulheres residentes da cidade de Cachoeira na Bahia, é notório por seu trabalho de preservação da raíz da cultura africana no Brasil, ancestral e que atravessou oceanos, e serviu como base para a estruturação de um projeto que representasse uma ode à resistência. Junto com a técnica de dança oriunda do Japão, conhecida como butoh, que também serve de suporte teórico para a estruturação da mostra, a artista amarra elementos do zen budismo com as religiões de matriz africana para desconstruir a visão tradicional que contempla a morte, criando um novo olhar para o tema. Seu cerne baseia-se no caráter transitório da existência e, como principal discussão proposta, o projeto convida o expectador a uma autorreflexão acerca de tudo o que dual é no existir, o limite entre dois pontos distintos, dois pontos distantes. Dentro desta conjuntura, Kalunga lança inquietações ao público sobre o que realmente é estar vivo e sobre um ciclo natural que impõe a necessidade da morte para que haja a vida.

Performance Kalunga 4_créditos Luara Del

Como um de seus pilares estruturais, Kalunga recria ritos de passagem a partir da ótica candomblecista para homenagear duas importantes figuras de luta que marcaram os tenebrosos tempos da ditadura militar brasileira – Helenira Rezende e João Breno. A escolha dos personagens ilustra com suas grandezas particulares o tom dual que a experiência congrega: Helenira Nazareth Rezende – Nira para uns e Preta para outros, foi criatura de múltiplas faces, mas que viveu em verdade uma vida breve. A ex-aluna da USP abandonou sua vida para aderir a Guerrilha do Araguaia e lutar contra a ditadura militar no país, foi morta em combate contra soldados defensores da opressão tornou-se ícone, mito e símbolo de luta que atravessa gerações; importante liderança da greve da Fábrica de Cimento Portland Perus, João Breno Pinto encabeçou a greve dos sete anos dos funcionários da corporação que reinvindicavam melhorias salariais e nas condições de trabalho. De origem humilde, João Breno adotou a prática da “não-violência ativa” em seu exercício no comando dos grevistas, acreditando que uma postura que pregrasse a agressividade dos operários enfraqueceria a causa. “De formas diferentes Helenira e Sr. João Breno têm biografias que os tornam maiores do que suas mortes, fazendo com que o legado de suas vidas seja maior do que a opressão contra a qual lutavam. Dessa forma eles personificam o titulo da exposição, Kalunga refere-se tanto ao mar quanto à morte, mas também é designado para tudo que é maior que o homem, o que ele não pode controlar.”, explica Ana Beatriz Almeida.

Visual, tátil e olfativo, Almeida reúne diversos elementos físicos e artifícios para criar uma ambientação que proporcione ao público uma imersão sensorial em Kalunga. Para costurar a complexa estrutura física da exposição, a artista utiliza materiais como metais, terra, ervas e sementes. Na era do mundo virtual, a exposição faz uso dos sentidos para questionar a necessidade de sentir a arte para compreendê-la. “Minha imersão nos ritos de morte do recôncavo baiano me levou a concluir que para tais culturas, o transe é em algum nível uma manifestação politica de um corpo não totalmente colonizado pela linguagem ocidental, na qual ele é o estrangeiro. O transe nas culturas negras é também uma reivindicação sobre uma forma própria de sentir o mundo. Nas últimas décadas isso se tornou uma questão para a arte também”, descreve Almeida. Dividida em três etapas, a experiência inicia no ato simples de descalçar os pés e fazer uma escolha entre direita ou esquerda, dependendo da escolha o público se encontra no rito para Sr. João Breno ou para Helenira Resende e, a partir daí, ele é levado para os respectivos lugares de luta de ambos. Seguindo o circuito, o expectador se depara com o ponto de intersecção dos personagens: uma casa de periferia, ou do interior, cuja saída será necessariamente o ambiente oposto ao que foi escolhido no começo. Ao centro fica a kalunga – tanto a pequena, quanto a kalunga grande, o mar – onde será realizada a troca de águas todo sábado às 18h.

A partir de uma proposta que abrange múltiplos pilares para dar vida a arte, o projeto Kalunga reúne colaboradores, ideias e ideais para tornar-se objeto concreto. Entre os suportes usados para formatar a mostra, a artista usou de multimeios como a videoarte, dança, fotografia, máscaras e áudio. Integram a construção do universo paralelo criado pelo projeto Kalunga: Luara Del Chiavon; Thiago Consp; e Antônio Carlos Soares.

Ancestralidade e cultura: o resgate da raíz e a reconstrução da memória

De origem bantu, a palavra “kalunga” é uma referência ancestral dos nativos africanos e simboliza a morte, o mar: é tudo aquilo que o homem não pode controlar. Historicamente, o batismo do mar como a “kalunga grande” deu-se pela transição que representava o abandono não voluntário de sua terra para ingressar em uma experiência totalmente nova. Atravessar o oceano rumo ao desconhecido, para os negros escravizados, correspondia a uma passagem, era a morte seguida no renascimento, uma existência que transmutava em memória e abria espaço para uma nova existência e novas memórias. A vida seguida da morte, seguida da vida e seguida da morte. Cíclico.

Na linha tênue entre vida, morte e arte, entre pesquisa e herança genética, a artista, dançarina e performer Ana Beatriz Almeida resgata suas memórias para compor com Kalunga uma atmosfera de transita entre o onírico e o político, dois polos que alicerçam sua arte e impulsionam sua existência. Neta de ex-membro da luta armada nacional (Var-Palmares) e filha de intelectuais negros, Ana Beatriz carrega em seu DNA o espírito questionador e de resistência. A memória, o resgate e o renascimento.

Ficha Técnica:

Criação e concepção: Ana Beatriz Almeida
Direção de expografia: Wolfgang Pannek
Video: Luara Del Chiavon
Máscaras: Thiago Consp
Concepção musical: Antônio Carlos Soares e Babalorisa Francisco de Osun
Producão: Amarilio Martins Junior

Agenda

Outubro

17/10 – Abertura das 15h às 18:30 / Performance às 17h

29/10 – Workshop sobre o processo criativo: “Kalunga – mito e memória, geopolíticas de deslocamento e resistência” / Sala de ensaio II – das 14:30 às 17:30

Novembro

05 e 07/11 – Vivência do método: “Ngomku: ritos de morte” / Sala de ensaio II – 19h às 21:30

Kalunga – Plataforma de debate: artistas negros em rede (curadores,espaços de arte e produção)

Dezembro

Kalunga – Lançamento do documentário sobre o processo criativo

Serviço

“Kalunga”
Data: 17 de outubro a 12 de dezembro / 2015
Horário: Terça a domingo, das 10h às 20h
Local: CCSP – Centro Cultural São Paulo
Endereço: Rua Vergueiro, 1.000 – São Paulo, SP

Performance Kalunga_créditos Luara Del

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Natt Naville

Natt Naville

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Natt Naville é jornalista e gosta de tudo que envolve o universo da comunicação. Entre palavras e histórias: Música. Música para tocar, para ouvir e dançar. Editora do Mistura Urbana, gosta de criar, recriar e se reinventar. Vive no paraíso azul da Grécia.