Antonio Dias ganha mostra de seus papéis fabricados no Nepal no Rio de Janeiro. - MISTURA URBANA

Antonio Dias ganha mostra de seus papéis fabricados no Nepal no Rio de Janeiro.

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A partir do dia 16 de agosto, o artista Antonio Dias ganha uma revisão de uma parcela singular de sua produção multifacetada: os papéis do Nepal, que serão exibidos pela primeira vez no Brasil. A mostra “Papéis do Nepal 1977 – 1986” fica em cartaz até 26.09.2015 na Galeria Nara Roesler em Ipanema, que traz nessa iniciativa um aprofundamento no universo do artista consagrado, possibilitando uma nova visão do conjunto de sua obra a partir desse segmento.

Pela pluralidade temática e processual, Dias evidencia sua recusa em adotar um único ponto de vista da produção artística e, com isso, não deixa que o espectador se acomode na facilidade de um significado pronto da obra. Nas palavras do historiador da arte italiano Sandro Sprocatti, o trabalho de Dias projeta “uma situação antiperspectiva por excelência, uma vez que nega a exclusividade de um ponto de vista não só devido à instabilidade representacional (ambiguidade substancial do signo e do espaço) mas, acima de tudo, porque implica a pluralidade das condições de fruição, ou seja, as condições existenciais que o observador tem em relação ao próximo”.

Os papéis que figuram na exposição foram produzidos durante uma viagem de Dias ao Nepal em 1977, com a finalidade de aprender a manufatura de papéis artesanais. A fase do Nepal é uma ruptura na trajetória pregressa do artista, calcada fortemente no conceitualismo, na utilização de mídias então incipientes, como o vídeo, e na criação de um léxico visual que englobava elementos pop, planos geométricos definidos por cor e palavras.

Esse repertório, repetido sistematicamente e embaralhado entre si, questionava o caráter da convenção social e da instituição artística como produtora de significados codificados e estanques, validados por um sistema de inserção e representatividade internacional, a que o regional deveria se submeter – o que se tornava evidente pelos títulos em inglês das obras, como a famosa série The Illustration of Art.

Muito mais do que funcionarem como suporte, os planos geométricos de papel artesanal são obras em si. Suas cores resultam da adição, durante a fabricação, de elementos naturais – como chá, terra, cinzas e curry -, incorporando o processo de produção como componente e mais um significante dos trabalhos. Realizados em conjunto com artesãos de uma fábrica de papel nepalesa, subvertem a questão da unidade autoral em sua gênese e mesmo em seus títulos, atribuídos por alguns dos trabalhadores, a exemplo de Niranjanirakhar.

Ou, como o próprio artista definiu em uma entrevista, “O que mais me interessa é a relação entre a produção desse trabalho e de seus produtores… Ao mesmo tempo que se empenhavam materialmente na produção, alguns deles também imprimiam uma leitura simbólica ao produto”.

A palavra nepalesa Niranjanirakhar, que significa Nada, é uma boa síntese da ambivalência de sentidos contida nesse grupo de trabalhos. Se em sua premissa pós-conceitual e processual reiteram a necessidade de construção da significação pelo espectador, provocando a consciência e a postura ativa de quem vai além da superfície imagética dos trabalhos, trazem nesse silêncio um caráter quase místico, por sua própria materialidade imperfeita e orgânica. Além da contaminação de significação pela territorialidade, tema caro ao artista.

Vale citar novamente Sandro Sprocatti: “Em ambos os casos, figuras ‘importadas’ da atuação anterior do artista adquirem novos significados em contato com a esfera cultural que testemunhou seu nascimento. Como resultado, a peça (também entendida como trabalho) ganha uma profundidade simbólica ao mesmo tempo improvável e exata. Do mesmo modo, a sintaxe pós-conceitual das instalações encontra novas razões de pertinência no interior de uma dimensão mística que tem pouco a ver com o Ocidente e sua história.”

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Sobre o Artista

Antonio Dias nasceu em 1944 em Campina Grande, Paraíba. Vive e trabalha entre Rio de Janeiro e Milão. Seus trabalhos fazem parte de importantes coleções internacionais, tais como: MoMA, Nova York, EUA; Ludwig Museum, Colônia, Alemanha; Daros Collection, Zurique, Suíça; Städtische Galerie im Lenbachhaus, Munique, Alemanha; Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina; e Centro Studi e Archivio della Comunicazione, Università de Parma, Itália, e renomadas coleções nacionais, tais como: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro; Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Curitiba; Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro; Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo; Itaú Cultural, São Paulo; Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo; Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, São Paulo; Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, Recife; e Museu de Arte Contemporânea de Niterói/Coleção Sattamini, Niterói.

Sobre a Galeria

A Galeria Nara Roesler, uma das principais galerias de arte contemporânea brasileiras, representa artistas influentes da década de 1960, além de renomados artistas em atividade que dialogam com as tendências inauguradas por essas figuras históricas. Fundada em 1989 por Nara Roesler, e dirigida em parceria com seus filhos Alexandre e Daniel Roesler, a galeria fomenta a inovação curatorial consistentemente há vinte e cinco anos, sempre mantendo os mais altos padrões de qualidade em suas produções artísticas. Para tanto, desenvolveu um programa de exposições seleto e rigoroso, criado em estreita colaboração com seus artistas; implantou e manteve o programa Roesler Hotel: uma plataforma para projetos curatoriais; e forneceu apoio contínuo a artistas além do espaço da galeria, trabalhando em parceria com instituições e curadores para apresentar iniciativas inovadoras e projetos empolgantes em exposições externas. Com um rol de artistas inovadores – como Abraham Palatnik, Antonio Dias, Hélio Oiticica, Paulo Bruscky e Tomie Ohtake – e uma nova geração liderada por Artur Lescher, Carlito Carvalhosa, Lucia Koch, Marcos Chaves, Melanie Smith e Virginia de Medeiros, a galeria mantém seu compromisso de preservar o legado de figuras históricas e incentivar a prática de artistas iniciantes e consagrados nos âmbitos local e internacional. Além de duplicar seu espaço expositivo em São Paulo em 2012, em 2014, a galeria abriu sua nova filial no Rio de Janeiro, cumprindo sua missão de participar do mundo das artes de forma ativa e influente.

Abertura

13.08.2015 19h > 22h

Exposição

14.08 > 26.09.2015
seg > sex 10h > 19h
sáb 11h > 15h

Galeria Nara Roesler

Rio de Janeiro
Rua Redentor 241
Ipanema 22421-030
Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Contato: 55 (21) 3591 0052
www.nararoesler.com.br
[email protected]

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Natt Naville

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Natt Naville é jornalista e gosta de tudo que envolve o universo da comunicação. Entre palavras e histórias: Música. Música para tocar, para ouvir e dançar. Editora do Mistura Urbana, gosta de criar, recriar e se reinventar. Vive no paraíso azul da Grécia.