EUXPERIMENTO: como foi passar 7 dias usando uma burca em São Paulo - MISTURA URBANA

EUXPERIMENTO: como foi passar 7 dias usando uma burca em São Paulo

euxperimento burca

Antes de mais nada vamos contextualizar vocês.

Conheci essa semana o projeto EUXPERIMENTO, do produtor e fotógrafo Richard Hodara, junto com sua produtora Vision Lights. O nome é bem auto-explicativo. Envolve você (no caso o EU) e um experimento. Mas não qualquer experimento.

Euxperimento,  consiste em experimentar hábitos não convencionais perante a sociedade, sempre levantando algum tema (político , religião, físico, espiritual, entre outros) tornando o voluntário uma espécie de termômetro para a sociedade, e para entendermos qual o nível de consciência humano estamos lidando, (preconceitos).

Com isso, o Richard quer colocar um pulga atrás da orelha de cada cidadão , e fazer pensar em coisas que nunca se pararam para pensar. Já rolaram alguns Euxperimentos mas eu vou começar pelo que eu achei mais provocativo e em posts futuros vou falar dos outros, então se prepare para uma série de conteúdos que eu acho que vão se tornar os meus preferidos nos próximos tempos.

"You are confined by the walls you built yourself."
“You are confined by the walls you built yourself.”

Em fevereiro, a Cristiana Ventura se juntou ao projeto e a missão escolhida foi passar 7 dias de burca.

Sobre a escolha deste desafio a Cris contou: “Quando mudei pra Londres eu me chocava com as mulheres que andavam apenas com o rosto de fora. Acreditava que elas estavam aprisionadas atrás daquela burca. Muitos anos se passaram, muitos árabes especiais entraram na minha vida, e ao ir pra Índia eu tive contato com pessoas que me mostraram um outro lado e comecei a entender que a liberdade depende de você. Quem aí nunca vestiu uma burca que atire a primeira pedra. Com esse EUXPERIMENTO eu espero me livrar das minhas burcas imaginárias. Aonde isso vai parar é uma escolha minha, e uma escolha nossa.

E então começa a história da Cristiana, que passou 7 dias usando uma burca pelas ruas de Sampa, com direito a sair até em uma matéria do G1. Abaixo, coloco algumas aspas das impressões dela, que foram postadas no instagram do projeto, no fim do post vocês podem acessar o link para conferir tudo na íntegra, com certeza vale MUITO A PENA! :)

Hoje eu saí pra jantar com uma amiga. Um casal ia sentar do nosso lado. Mudaram pra mesa da frente. Ela virava o pescoço pra me olhar. Acabou mudando de acento e sentou bem de frente. 10 minutos depois eles sentaram na mesa ao meu lado. Fui xingada por uma senhora na rua, ela me disse que eu ia tomar uma chibatada por que sou uma biscate. Um cara gritou VAI EXPLODIR e uma meninas começaram a falar que isso era um absurdo. Mas fora isso, recebi um Namastê de uma mendiga na rua, ganhei cumprimento de um rapaz que me disse que deus está comigo e um sorriso sincero de uma menina muito bonita. Depois de tantos olhares de reprovação e medo, essas poucas pessoas fizeram a diferença no meu dia. Posso dizer que não está sendo fácil, vai ser duro agüentar uma semana assim, imagino o que não deve ser viver a vida toda sendo recriminada e julgada.
Fui xingada por uma senhora na rua, ela me disse que eu ia tomar uma chibatada por que sou uma biscate. Um cara gritou VAI EXPLODIR e uma meninas começaram a falar que isso era um absurdo. Mas fora isso, recebi um Namastê de uma mendiga na rua, ganhei cumprimento de um rapaz que me disse que Deus está comigo e um sorriso sincero de uma menina muito bonita. Depois de tantos olhares de reprovação e medo, essas poucas pessoas fizeram a diferença no meu dia. Posso dizer que não está sendo fácil, vai ser duro aguentar uma semana assim, imagino o que não deve ser viver a vida toda sendo recriminada e julgada.
Como podemos julgar o cara ao nosso lado baseado em pré-conceitos superficiais se cada um é um universo infinito e particular. Quando se fecha a janela do carro no menino malabarista de semáforo ou olhamos alguém sentado num café com uma roupa inusitada não podemos imaginar qual a história deles. Que caminho precisaram percorrer para estarem ali e por que de alguma maneira precisamos nos encontrar naquele dia. Todo mundo trava suas batalhas diárias, independente de religião, condição social, etnia e senso estético. Por que não ver que o outro pode ser você?
Como podemos julgar o cara ao nosso lado baseado em pré-conceitos superficiais se cada um é um universo infinito e particular. Quando se fecha a janela do carro no menino malabarista de semáforo ou olhamos alguém sentado num café com uma roupa inusitada não podemos imaginar qual a história deles. Que caminho precisaram percorrer para estarem ali e por que de alguma maneira precisamos nos encontrar naquele dia. Todo mundo trava suas batalhas diárias, independente de religião, condição social, etnia e senso estético. Por que não ver que o outro pode ser você?

copia
Hoje eu dei um rolê na Vila Olímpia na hora do almoço, o povo riu da minha cara, todo mundo ficou meio chocado[…] Algumas pessoas tem sido mais simpáticas que o normal comigo, tipo a galera da padoca que eu tomo café e o tiozinho do estacionamento me tratou normalmente me desejando bom fim de semana. Eu to MUITO cansada, acho que é uma carga espiritual pesada lidar com tanto julgamento. […]
#lookdodia de todo santo dia. Não gueeeeento mais usar esse look. Desde a camarotização do universo eu parei de usar bolsa de label que vende no cidade jardim, mas ontem eu TIVE que tirar minha Pucci do armário. Por baixo da burca elas ainda são mulheres reais, querem ter um cabelo bonito, usar acessórios legais e deve ser frustrante deixar tudo coberto. Tipo aqueles móveis da sala que ninguém usa que ficam com uma capa. Eu tava achando incrível não precisar escolher roupa por 10 dias e agora já to achando um inferno, ontem eu vi uma loira platinada que nem eu na rua, o cabelo dela tava tão lindo, não consegui parar de olhar. Me deu a maior vontade de tirar esse véu e jogar o cabelo pro lado. Talvez os homens não entendam o que eu to falando, mas com certeza as mulheres vai se relacionar. Engraçado e que comecei a notar outras coisas sobre mim. Achei umas manchinhas brancas no ombro, comecei a sentir aonde começa a minha cartilagem do nariz. Parece que toda a minha relação com o meu corpo ta começando a mudar junto com isso...e hoje o sábado ta só começando. O brazeeeeel vai ver a primeira muçulmana pinguça do mundo PQ NÃO SOU OBRIGADA. Obrigada. #ootd
Desde a camarotização do universo eu parei de usar bolsa de label que vende no cidade jardim, mas ontem eu TIVE que tirar minha Pucci do armário. Por baixo da burca elas ainda são mulheres reais, querem ter um cabelo bonito, usar acessórios legais e deve ser frustrante deixar tudo coberto. […] Eu tava achando incrível não precisar escolher roupa por 10 dias e agora já to achando um inferno, ontem eu vi uma loira platinada que nem eu na rua, o cabelo dela tava tão lindo, não consegui parar de olhar. […] Engraçado e que comecei a notar outras coisas sobre mim. Achei umas manchinhas brancas no ombro, comecei a sentir aonde começa a minha cartilagem do nariz. Parece que toda a minha relação com o meu corpo ta começando a mudar junto com isso… […]
Hoje eu fui xavecada no centro de burca. Um monte de gente começou a falar árabe comigo, como todo dia todo mundo olha com cara de despero e depois comenta alguma coisa com o amiguinho e ontem a minha amiga ARRANCOU a minha burca. Disse que não agüenta mais me ver assim. É esse tipo de reação que a burca desperta nas pessoas. Ah! Um rastafari loiro de olho azul ficou indignado cmg (?) Falta pouco. Ufa! #dia5
[…] ontem a minha amiga ARRANCOU a minha burca. Disse que não agüenta mais me ver assim. É esse tipo de reação que a burca desperta nas pessoas. […]
euxperimento mama
Hoje eu conheci a Mama. Ela é estilista que nem eu, muçulmana e não usa burca. Ela me contou que veio da África faz quase 9 anos e que sofre muito preconceito. As pessoas não querem sentar do lado dela no ônibus e nem querem dar espaço pra ela sentar. Chamam ela de macumbeira apesar dela ser muçulmana. Ela contou na língua dela pra um senhor que tava junto que eu tava fazendo esse euxperimento e ele também adorou. Os muçulmanos aprovam, ufa. […]
Ta acabando e eu preciso confessar pra vcs que eu não agüento mais […] honestamente ta impossível sobreviver a esse calor com essa burca. Hoje fui dar um rolê na Sé, mesma história. Uma menina começou a rir, o amigo dela mandou ela ficar quieta porque eu podia assassinar ela, nessas horas me da vontade de abrir os braços e falar BÚ! Um senhor me desejou namastê (confundiram de novo mas eu acho bem fofo mesmo assim) um cara falou algo tipo vai explodir novamente e um senhor com cara de adEVogado ficou circulando por mim uns 3 minutos e falando: “estado islâmico no Brasil” não entendi se ele tava assustado ou não, depois eu comecei a seguir ele só pra ser engraçado. […] uma senhora comentou com a amiga que “tem homem que gosta” e uma outra senhora me falou que é um desperdício e assim a coisa vai. Tiro meu chapéu pras muçulmanas. Eu não ia aguentar. […] O bom é que aprendi a relevar os xingamentos e agora até tento levar com mais humor senão eu não saía mais de casa.
 

Life happens in the end of your comfort zone. Essa semana eu me tirei da zona de conforto em tempo integral, precisei fazer coisas que não gostei muito mas em todos os momentos eu me respeitei. Hoje não foi diferente. Toda quarta-feira de manhã eu jogo tenis, eu não consegui ir de burca. 30 graus eu sol escaldante com uma raquete na mão não combina com uma burca. Eu falhei, mas pra mim isso tem gosto de vitória. Não passei por cima de mim, e esse é um grande aprendizado que eu carrego junto com tantos outros que vim aprendendo ao longo dessa semana e muitos que acho que só vou entender com o tempo. Hoje é último dia dessa montanha-russa de emoções que eu me enfiei por livre e espontânea vontade e vou até o fim, com um pequeno deslize no meio do caminho, mas relevante, quem nunca falhou pra aprender algo sobre si? Hoje tem selfie na faculdade dnv e se tiver pau de selfie vai ter selfie com pau de selfie, SIM! #dia7
Life happens in the end of your comfort zone. […] Não passei por cima de mim, e esse é um grande aprendizado que eu carrego junto com tantos outros que vim aprendendo ao longo dessa semana e muitos que acho que só vou entender com o tempo.
[…] Uma coisa que eu notei logo no primeiro dia e que a gente tem no imaginário que mulher muçulmana não pode trabalhar, se exercitar, não pode fazer nada. É como se ela só pudesse viver em função do marido e passar o dia todo na cozinha. Falta do mais 1:30h ora acabar o meu euxperimento e parece que eu vivi 3 meses nessa única semana. Foi MUITO único e MUITO intenso. […] Foi demais! Beeeeeijos galere e se coloquem sempre no lugar do outro, é transformador! Um obrigada especial aos meus alunos lindos, que bom que eu sou professora de modas, posso ser excêntrica!
 

Para conferir toda trajetória da Cristiana, acesse o instagram do projeto www.instagram.com/euxperimento  e fique de olho aqui no Mistura Urbana, por que continuaremos a postar sobre o projeto! 

* Fotos retiradas do instagram do projeto e algumas, gentilmente cedidas pelo Richard Hodara, que é um belo fotógrafo, diga-se de passagem! ;)

 

 

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Lila Varo

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Lila Varo, é produtora de conteúdo, editora do Mistura Urbana e mais um continente a sua escolha. lila[@]misturaurbana.com

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