Shalak Attack e a força das cores em suas criações [Entrevista] - MISTURA URBANA

Shalak Attack e a força das cores em suas criações [Entrevista]

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A artista que nasceu e cresceu no Canadá, Shalak Attack faz da arte sua vida e da vida sua arte. Desde garota, ela gosta de desenhar nos muros e sempre sentiu que seu caminho seria a pintura e a criatividade. Com suas viagens e experiências foi construindo suas técnicas, passeando por diversas áreas e desenvolvendo seu trabalho para compartilhar com o mundo e ajudar no desenvolvimento cultural e artístico.

Para ela, sua maior inspiração é o poder dos grandes espíritos que se manifestam nos animais, e utilizar a força das cores que lhe traz a liberdade, o sentimento de esperança e a real possibilidade de se comunicar. Trabalhando com comunidades, coletivos e diversos artistas “around the world”, Shalak gosta de pintar na rua, onde acredita que seja o espaço mais desafiador, e tem na essência do graffiti, a possibilidade de deixar sua marca no mundo, e de escrever histórias com uma voz alternativa e livre.

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Confira o bate papo exclusivo com ela:

1- Conte-me um pouco sobre você: como foi o primeiro contato com as artes até entrar no mundo do graffiti…

Até agora foi um longo caminho que me venho dedicando na arte, minha paixao são as cores, e sinto que através delas eu consigo me comunicar verdadeiramente. Eu nasci e cresci no Canadá, minha família toda é do Chile. Desde menina sempre desenhava nos muros de casa e embaixo dos móveis, com o passar do tempo sabia que a arte era meu caminho. Aos 17 anos estava completamente apaixonada pela pintura e consegui montar meu primeiro portfólio que mandei para ver se entrava na Universidade de Belas Artes, como não era muito de boas notas na escola fiquei muito surpresa quando fui aceita para estudar na faculdade. Para minha família, sempre foi importante que a gente estudasse, eles eram da época do Allende, do primeiro governo socialista democraticamente elegido no Chile, onde a igualdade foi, por um curto tempo, um sonho realizado, antes de ser destruído pela ditadura do Pinochet. Ter acesso à uma boa educação e saúde era um dos maiores valores de meus pais, e eles queriam que eu e minha irmã tivéssemos todas as oportunidades que o Canadá nos oferecia. Foi com essa base que eu fui estudar Belas Artes na Universidade de Concordia em Montreal, Quebec.

Durante esse tempo eu fui estudar um ano em Oaxaca, México como intercâmbio. Essa experiência foi uma grande base para o resto de minha vida, com 19 anos fui viver e estudar sozinha em outro país. Foi um ano onde enfrentei muitos medos, aprendi muitas técnicas e história da arte mexicana e também foi um dos capítulos mais mágicos de minha vida. Foi lá também onde nasceu meu nome artístico de rua “Shalak”, que meus amigos me deram quando zuavámos nas ruas taggiando e fazendo loucuras, nessa época era só de brincadeira e nunca imaginei que 15 anos mais tarde ainda estaria usando o mesmo nome, nem que ia estar realizando meus sonhos desde então, pintando murais pelo mundo.

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Depois de me graduar da Universidade, senti outra necessidade que nasceu do fundo de minha intuição que me falava que eu precisava ir para o Brasil. Eu não tinha ideia porque ou como, mas meu coração estava decidido, e em 2005 eu peguei um ônibus desde Chile (onde eu tinha decidido viver um tempo) e atravessei os Andes por Argentina e subi ate chegar no Rio de Janeiro. Era algum sexto sentido que me levou, mas cada passo eu sentia que era o certo, nunca tinha sentido tanta certeza do que eu estava fazendo. Na primeira noite no albergue onde cheguei em Botafogo, a dona me viu desenhando no meu sketchbook e pediu que eu pintasse um mural. Seria meu primeiro mural e consegui trocar minha estadia por meu trabalho artístico. Pintei de pincel com pintura em óleo e demorou muito tempo, mas como eu estava completamente apaixonada pelo Brasil e não queria ir embora, a demora foi muito boa para mim, porque assim consegui ficar mais tempo. Além do mural consegui fazer muitas outras coisas, eu criei os planos de desenho do interior da nova boate que os donos do albergue estavam construindo e dentro dela também criei meu primeiro mosaico. Na mesma época entrei em contato com uma ONG que fazia trabalhos culturais e artísticos em presídios e fui convidada a dar um workshop para um grupo de mulheres prisioneiras. As obras que elas pintaram nesse workshop foram para Brasília, para serem expostas em uma reunião nacional sobre os direitos humanos, as obras delas representaram a voz delas na reunião.

Um curto tempo depois, eu consegui voltar para ficar mais um ano no Rio pelo um estágio/intercâmbio de uma ONG do Canadá que me mandou trabalhar com a ONG Afro Reggae. Foi ali que finalmente sai para rua, para fazer meu primeiro real graffiti. No Canadá, tive muitos anos que me interessei pelo graffiti, tinha amigos que pintavam na rua, mas nunca me levaram a pintar mesmo, quando eu pedia para ir junto. Nessa época não tinha mulheres grafitando, e eu acho que não era de maldade que não me convidavam, eu acho que a possibilidade de uma mulher grafitando só não entrava na mente deles. Depois que comecei a pintar na rua, ninguém me segurou, senti uma liberdade enorme e comecei a querer pintar mais e mais. Quando voltei para o Canadá, segui procurando e dedicando meu caminho ao graffiti. O graffiti me ensinou muita coisa, sobre eu mesma como do mundo ao redor, sem ele, não seria quem sou hoje.

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2- Você é uma artista que trabalha com diversas áreas e técnicas diferentes: muralismo, graffiti, produção de telas. Como é trabalhar e experimentar todas elas?

Eu acho importante explorar diferentes meios, sempre procurei aprender diferentes técnicas, comecei por tela, depois fui para graffiti e muralismo. Parece que eu sempre senti a necessidade de pintar mais, então ir para muro foi o mais natural.

3- Além disso, você também explora outras mídias, como tattoo, vídeo, joalheria. Como incorpora todos esses aprendizados nas suas criações.

A vida no Canadá tem o inverno longo e muito frio, então é o tempo da gente trabalhar as telas, ilustração, tattoo e outras. Com a neve e frio não tem como ficar pintando na rua então tem que produzir no estúdio, e é um tempo bom para desenvolver os outros meios de expressão. Cada uma vai inspirando a outra, o que vou aprender na joalheria, depois eu posso traduzir para o graffiti, e vice e versa.

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4- Sua arte é marcada por cores fortes e vibrantes. Quais são suas inspirações e os seus personagens. O que sua arte quer passar como mensagem?

Minhas inspirações são muitas e vão evoluindo com o tempo. Agora uma forte fonte de inspiração são os grandes espíritos que vem se manifestando em forma de animal, eles são os guardiões da natureza, e muitas vezes eles vêm com convicção para nos lembrar que não estamos cuidando bem da terra e que nosso jeito de viver é insustentável. As cores que uso nascem naturalmente, desde menina sempre usei cores fortes, quando uso elas me dão um grande sentimento de liberdade.

5- Você também procura trabalhar com comunidades ao redor do mundo, como oficinas, etc. Conte-me sobre essa experiência e de que maneira a arte dialoga e ajuda essas pessoas.

Eu acredito profundamente no poder da arte. Eu já vi a arte mudar muitas vidas, dar um sentimento de esperança, de propósito, de confiança, auto-estima e sobre tudo felicidade. Sou testemunha que a arte pode unir comunidades, e ser uma grande ferramenta para dialogar e entender ao outro como a si-mesmo. Já vi a arte comprar um par de botas no meio do inverno para uma jovem de 12 anos que não tinha condições e que tinha vendido sua primeira tela numa exposição de arte comunitária. Eu vi a arte abrir portas onde tinha guerra para deixar entrar a possibilidade de paz. Eu vi arte ser o meio de vários jovens sair da violência, de se dedicar tanto de poder conseguir viver de sua arte, e depois passar essa arte para a próxima geração. Emfim, vi tantos exemplos da arte melhorando vidas que eu só posso ficar na humilde tentativa de querer compartilhar esse poder com mais pessoas.

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6- Você passou um tempo no Brasil. Veio para morar, criar? Como foi essa experiência por aqui. Pintou com alguns artistas brasileiros?

Em 2010 eu voltei para Brasil depois de uns anos para visitar. Foi ali que eu conheci o grande e talentoso Bruno “Smoky”, que virou meu companheiro de vida e de arte. Em 2011 a gente se casou e ficamos morando em são Paulo até 2013, quando fomos morar juntos no Canadá. São Paulo é uma segunda casa para mim, eu tenho a família do Bruno aqui, que são muito queridos, e vários amigos que são fiz através do graffiti. O graffiti une muito as pessoas e consegui conhecer muitas pessoas e criar muitas boas amizades através dele. No Brasil tive a oportunidade de conhecer muitos bairros de Sampa, do Rio, de pintar em Curitiba, Porto Alegre, e logo menos vou para Recife para pintar no festival Resifusion! Aqui em Sampa a gente sempre pinta junto com o Sapiens e o Joks que considero meus irmãos do graffiti, mas sempre estamos colaborando com vários artistas talentosos que depois viram parte da grande família do graffiti, são muitos e cada um super importante então melhor nem falar mais nomes porque a lista seria gigante! É muito bom ter compartilhado com tantas pessoas através do graffiti!
Para mim, o Brasil é o melhor lugar para pintar e, é um grande exemplo de graffiti para o mundo, tem diversas técnicas e as pessoas se dedicam muito, é muita inspiração para mim, e também um desafio para sempre estar ativa e presente na rua pintando!

7- Conte um pouco sobre os coletivos que você está envolvida: Essencia, Bruxas e Clandestinos.

Os Clandestinos é o nome que usamos quando meu esposo Smoky e eu criamos juntos. O nome Clandestinos veio do conceito que a gente está unido pela arte e o amor e não precisamos de passaporte para viver essa conexão. Através de nossa voz artística a gente tenta quebrar fronteiras preconceituosas e estáticas e construir uma cultura consciente.

Facebook: https://www.facebook.com/Clandestinosart

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Essencia é nosso coletivo que comecei junto com a minha irmã, “Fiya”. O Coletivo de Arte Essencia acredita na arte como ferramenta social e comunitária. Com membros de seis continentes, Essencia se expressa a partir de uma perspectiva única e global. Tendo mais de 10 anos de experiência trabalhando em diversas comunidades ao redor do mundo, o coletivo já tem projetos artísticos feito com juventude, primeiras nações, refugiados, imigrantes, presidiários, galerias e festivais. Essencia se expressa através do muralismo, arte de rua, grafite, design gráfico, fotografia, vídeo, música, poesia, dança e amor!
Ao focar os quatro elementos (Terra, Fogo, Água, Ar) e os quatro pontos cardeais, Essencia visa prestar homenagem a Mãe Terra, e para incentivar a unidade.
“Nós acreditamos que a expressão artística é a nossa maior ferramenta, e que pode ser usada como catalisador para a expressão e como um fórum para o diálogo. Podemos então concentrarnos sobre questões importantes, globais e locais, de nossas sociedades, e comemorar a diversidade cultural e artística”. – Essencia

website: www.essenciartcollective.com

Facebook: www.facebook.com/EssenciaAC

Bruxas e o crew feminino que comecei junto com a minha irma, “Fiya”, para celebrar o espírito feminino dentro das artes. Criado em 2010, as Bruxas é um coletivo internacional de artistas do sexo feminino que usa as Artes Visuais, Graffiti, muralismo, instalação, vídeo, fotografia, MC, poesia para expressar e fortalecer a voz das mulheres. O Bruxas comemora uma irmandade de poderosas membros originárias do Canadá, Chile, Bolívia, Argélia, Brasil, França, Argentina, 6 Nations, e vai crescendo.

Hoje em dia as culturas de arte urbana são dominadas por homens, e muitas vezes as companheiras femininas se encontram isoladas e confrontadas por vários estigmas relacionados com o seu gênero. Historicamente nas sociedades patriarcais, as bruxas têm sido sistematicamente perseguidas, e nós as “Bruxas” decidimos nos unir e reivindicar este nome como uma forma de questionar as representações impostas nos papéis de gênero. As Bruxas são inclusive de colaboradores masculinos, porque elas tem a visão de poder ser parte do movimento de acabar com divisões de gênero binários e discriminação.
Em inglês por seja caso que não traduzi bem (In today’s male dominated urban art cultures, women counterparts often find themselves isolated and confronted by several assumptions and stigmas related to their gender. Historically within patriarchal societies witches have been systematically persecuted, and the Bruxas decided to unite and reclaim this name as a way to question and challenge labels representing gender roles. Bruxa: Portuguese noun meaning “Witch”, a woman possessing healing magical powers. The Bruxas are inclusive of male collaborators, as they look forward to being a part of ending binary gender divisions and discrimination.)

Facebook: https://www.facebook.com/BruxasArt

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8- Onde prefere pintar, criar?

Na rua, mesmo que o mais desafiador, é o que dá a maior satisfação.

9- Qual é a essência do graffiti para você?

A essência do graffiti para mim, é a necessidade que existe desde o início da humanidade, de deixar a sua marca no mundo. Eu vejo que o graffiti agora é um jeito da gente, as pessoas communs, escreverem e deixarem nossas histórias escritas, se manifestar na cara do capitalismo que toma posse de nossos espaços públicos com sua propaganda e ganâncias privadas. Mesmo se for consciente ou não, o graffiti retoma esses espaços para propagar uma voz alternativa e livre, que seja para manifestar arte e cultura, não só deixar uma marca, um nome que não seja da Coca Cola ou Nike…

10- Deixe uma mensagem para os leitores do Mistura Urbana e às pessoas que apreciam a sua arte.

É um grande prazer poder compartilhar minhas cores com vocês e um pouco da minha história! Valeu por toda a positividade!

Mais dela aqui, aqui e aqui.

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Natt Naville

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Natt Naville é jornalista e gosta de tudo que envolve o universo da comunicação. Entre palavras e histórias: Música. Música para tocar, para ouvir e dançar. Editora do Mistura Urbana, gosta de criar, recriar e se reinventar. Vive no paraíso azul da Grécia.

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