Um grafiteiro paulistano conquista Hamburgo [Entrevista] - MISTURA URBANA

Um grafiteiro paulistano conquista Hamburgo [Entrevista]

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texto por Manoella Barbosa fotos de Miguel Ferraz 

O cara é estiloso, nota-se. Nos pés, sneakers pretos do estilista inglês de origem turca Hussein Chalayan, conhecido por sua parceria com a PUMA, sujos de tinta branca. “Vou tentar limpar, tomara que saia”, diz João Paulo Cobra, conhecido como NOVE, um grafiteiro paulistano de 31 anos.

Os sneakers estão sujos por uma boa causa: No dia anterior, NOVE pintou, das seis da tarde às quatro da manhã, um mural no estádio de Millerntor, o estádio do time cult de Hamburgo, o Sankt Pauli. E haja tinta, já, que, dias antes, o artista pintara uma parede de 18 metros de altura por 20 de largura no terreno do Dockville, festival de música e arte de Hamburgo, que ocorre na ilha de Wilhelmsburg, a maior ilha fluvial povoada do mundo depois de Manhattan. Ele intitulou o grafite de “Liberty of your mind”.

Como se isso não fosse trabalho o suficiente, João Paulo, vulgo NOVE, ainda encontra tempo para se dedicar ao projeto 6x3x3. “Um dia em 2009 o Binho Ribeiro, meu amigo percursor do Grafitti brasileiro, me ligou me convidando para um churrasco onde alguns alemães estariam presentes”, conta NOVE.

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O encontro resultou em uma entrevista de sete páginas para a revista independente de urban art spacemag e em uma inscrição para o festival Wash Festival, que ocorreria 2011 em Hamburgo. “Não fui selecionado, mas, quando os alemães do churrasco idealizaram o projeto 6x3x3, que visa entender o espaço urbano de São Paulo, Buenos Aires e Hamburgo, eles pensaram em mim”.

Para a etapa atual projeto, NOVE desenvolveu, junto com o fotográfo teuto-português Miguel Ferraz, uma intervenção artística a ser exposta no próximo sábado, dia nove, no bairro de City Nord. “O Miguel vive em Hamburgo e sugeriu o bairro. É muito louco porque o bairro é um lugar meio inabitável fora dos prédios corporativos. Você não vê gente, não vê um bar. É um lugar corportivo e acabou”, fala NOVE.

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Enquanto isso Miguel, perto da gente,  faz barulho usando uma furadeira e uma lixa, terminando o objeto que usarão para a intervenção e que a pedido dos artistas não será citado ainda. Como se não bastasse o barulho de Miguel, um casal de artistas resolve ajudar e começa uma briga. “Ignora, vamos continuar nossa conversa aqui”, diz NOVE, rindo.

Nos encontramos no pátio da  Frappant, uma galeria independente escondida em uma rua arborizada do bairro de Altona. Miguel parece menos relax com a gritaria e resolve ir olhar. NOVE enrola um cigarro de palha e continua calmamente: “continuando, nossa ideia tem a ver com trazer um pouco de vida para o City Nord, de oferecer uma opção de chilling out para as pessoas que passam por ali”.

O reconhecimento de seu trabalho na Alemanha signfica muito para NOVE. “Eu sempre soube que meu trabalho seria bem acolhido na Alemanha. Eu não faço um figurativo comum, eu desconstruo muita coisa, misturo um monte. Em São Paulo as pessoas às vezes não entendem isso. Aqui o pessoal tem uma cultura artística mais evoluída, eu creio que isso contribui para o entendimento do meu trabalho”.

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Além de urban artist, NOVE também adora um skate. “Eu comecei a andar de skate em 93. Quando meus amigos da Skate Até Morrer ficaram sabendo que eu estava vindo pra cá, me deram um skate de slalom pra longbord mas com um shape bem curtinho. Quando eu ando em Hamburgo com esse skate, essa cidade toda plana, parece que estou num foguete”, afirma ele, rindo e gesticulando com a mão esquerda o movimento do skate. “Ele é pequeno, tem rodas grandes, é perfeito! Eu até coloquei uma câmera GoPro bem na frente dele”. As filmagens da câmera acoplada no skate servirão de base para um vídeo sobre a turnê européia dele.

Miguel ainda não voltou, a briga foi apaziguada. O discurso de NOVE continua apaixonado, intenso, vibrante: “Estou me sentindo muito valorizado aqui em Hamburgo, estou feliz. Abri minha entrada na Europa com chave de ouro, ao pintar a parede do prédio para o festival de Dockville. Depois veio o convite para o Millerntor Gallery, um lugar onde muitas querem pintar mas poucos podem. E recebi um convite para Viena, o cara me ligou tem poucos dias”.

Só uma coisa anda incomodando o artista, que, além de grafiteiro e muralista, é pai de uma menina de quase três anos: “Minha fillhinha é linda. Eu nunca fiquei tanto tempo longe dela, estou morrendo de saudade”. Nesta hora, quem olha com mais atenção parece ver um olho marejado. Mas ele logo coloca os óculos de sol pirata de novo. Afinal, o moço é estiloso.

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Manoella Barbosa
É jornalista na Alemanha. Morre e mata por tiramisú. A paisagem mais bonita que já viu foi em uma viagem de trem de Oslo para Bergen. Já cantou karaokê em Budapeste e sapo cururu para a filha de 3 anos.
Contato: manoellabarbosa[@]hotmail.com

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