[Entrevista] Samy Sfoggia e suas manipulações de pesadelos - MISTURA URBANA

[Entrevista] Samy Sfoggia e suas manipulações de pesadelos

samy sfoggia rapid eye movement1
J´adore le coup des fourmis – Rapid Eye Movement (Samy Sfoggia)



Samy Sfoggia é como a grande maioria das pessoas. Demorou muito tempo pra descobrir o que fazer da vida. Afinal, convenhamos, não são todas as pessoas que possuem desde sempre, a resposta certa para aquela temida pergunta: “o que você quer ser quando crescer?

Ela foi de Licenciatura plena em História, passando por especialização em Arte, Corpo e Educação (onde ela deixa claro que não possui ritmo e seja péssima em interpretação) pra chegar em Bacharelado em Artes Visuais, onde ficou 6 anos fazendo todas as matérias possíveis até descobrir do que realmente gostava.

Conversei um pouco com a artista, que realiza interferências em fotografias e negativos e transforma-os em imagens que parecem mais ter saído do subsolo do 359o. nível do inferno. (isso é uma opinião minha, mas aposto que ela não vai se importar em eu dizer isso)

Confira abaixo a entrevista e algumas imagens que selecionei. Para ver mais, visite o site da artista!

Die Schraube und der Bauer - Rapid Eye Movement (Samy Sfoggia)
Die Schraube und der Bauer – Rapid Eye Movement (Samy Sfoggia)

Seus trabalhos tem um “quê” dos piores pesadelos possíveis. De onde surgiu essa inspiração?
A primeira série de imagens que fiz foi a Rapid Eye Movement, em 2012. Eu já estava cursando a faculdade de Artes havia uns 6 anos e até aquele momento não tinha produzido nada que quisesse mostrar publicamente. Em 2011 ingressei no mestrado em Literatura Comparada e comecei uma pesquisa sobre o Kaspar Hauser, uma criança que no século XIX foi criada aprisionada em um porão sem ter contato com outras pessoas. O primeiro capítulo da minha dissertação era sobre os diversos tipos de isolamento social. Fiquei tão obcecada pelo assunto que passei a evitar sair de casa e encontrar pessoas. Em decorrência disso (e por ficar horas na frente do computador lendo), desenvolvi ciática e uma sensação de tédio crônico. Os pesadelos se tornaram constantes também. Eu não sabia exatamente o que fazer comigo. Além disso, eu tenho uma enorme dificuldade em expressar pensamentos e sentimentos através da fala. Como percebi que estava a um passo do caos mental por ficar internalizando essa ideia de isolamento, decidi simplesmente desistir do mestrado e procurei formas de materializar as imagens que apareciam na minha cabeça durante o sono.

It´s not part of the story - Rapid Eye Movement (Samy Sfoggia)
It´s not part of the story – Rapid Eye Movement (Samy Sfoggia)

Crianças e elementos infantis são recorrentes nas suas fotografias. Algum motivo específico para eles aparecerem tanto?
Tenho a impressão de que quando uma pessoa trabalha com arte, ela tenta de alguma forma retomar parte do comportamento infantil, pois assim como o ato de brincar requer imaginação e despretensão, o processo artístico também precisa desses elementos para acontecer. Infelizmente, conforme o tempo passa, perde-se muito pelo caminho. Se você fizer o exercício de tentar se lembrar de como se sentia em determinados momentos quando era criança e como resolvia situações de conflito (mesmo quando essas eram consideradas desimportantes pelos adultos), é possível que grande parte das preocupações que você tem atualmente deixe de te incomodar tanto. Tanto na infância quanto na vida adulta o medo é um sentimento intrínseco, contudo, as crianças tendem a demonstrá-lo sem constrangimento. Assim como as crianças vivem ludicamente, sem precisarem buscar explicações para tudo, o universo onírico também não necessita de interpretações constantes.

66kg / 145lbs - Rapid Eye Movement (Samy Sfoggia)
66kg / 145lbs – Rapid Eye Movement (Samy Sfoggia)

Qual o seu processo de criação? Da escolha da fotografia à realização do trabalho em cima delas.
Não existe exatamente um padrão, varia conforme a série de imagens. Normalmente, acabo usando fotos que fiz sem nenhuma pretensão durante viagens. Algumas, inclusive, são de negativos mal revelados ou de imagens desfocadas, com pouco contraste, etc. Dificilmente eu mesma amplio as imagens em laboratório (pois o papel fotográfico é escasso e bem caro). Costumo digitalizar esses negativos e, em seguida, manipulo bastante as imagens em um editor. Distorço figuras, faço colagens, sobreponho camadas, desenho, inverto cores. Quando acho que foi suficiente, imprimo as imagens em papel fotográfico comum e em uma dimensão não muito grande. Depois disso, risco a foto com agulha, mancho com tinta, desenho com caneta e com linhas, furo o papel, etc. Após todo esse processo, escaneio a “matriz” em alta resolução e reimprimo o trabalho em tamanho maior e em um papel de melhor qualidade (gosto bastante do papel Matte, que não tem brilho nenhum).

(2012) da série Das Fremde in mir
(2012) da série Das Fremde in mir

Você conta que emprega algumas fotografias de seu acervo pessoal. O que seus pais e familiares acham do resultado final?
Eu manipulo tanto as imagens que fica difícil alguém se reconhecer. Pelo que me lembro, aconteceu uma vez apenas. Minha mãe viu um dos meus trabalhos em uma exposição e me perguntou: “é assim que você me enxerga?”. O rosto dela estava completamente deformado na foto, ela só soube que se tratava de uma imagem dela porque reconheceu uma parte da roupa. Eu procuro deixar bem claro que não transformo os parentes em monstros por problemas pessoais. São somente fotos… espero que ninguém tente fazer uma análise de viés psicológico a partir das minhas imagens, pois se fizerem, é possível que tentem me internar.

Quais artistas te inspiram?
Minhas referências são de áreas diversas. Na fotografia, por exemplo, gosto de um artista eslovaco pouco conhecido que se chama Tono Stano. Ele tem uma série fotográfica intitulada White Shadow que, em minha opinião, é um trabalho fantástico. Ele usou papel fotográfico ao invés de negativo em uma câmera de grande formato do século XIX para fotografar modelos que pintaram seus corpos com tinta preta. O resultado é uma imagem invertida e muito bizarra. Outra inspiração é o trabalho do David Lynch. Gosto tanto dos filmes quanto das pinturas dele. Na literatura, além dos livros do Kafka, busco ideias nos contos de um escritor chamado Sigizmund Krzhizhanovsky, que infelizmente possui apenas um livro traduzido para o português (O marcador de página).

(2012) da série Das Fremde in mir
(2012) da série Das Fremde in mir

 

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Lila Varo

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Lila Varo, é produtora de conteúdo, editora do Mistura Urbana e mais um continente a sua escolha. lila[@]misturaurbana.com

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