[Entrevista] Crying Meri :: documentando a violência contra a mulher em Papua Nova Guiné - MISTURA URBANA

[Entrevista] Crying Meri :: documentando a violência contra a mulher em Papua Nova Guiné

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Por Lila Varo e Ariane Corniani

Papua Nova Guiné é um lugar perigoso para as mulheres, ou “meri”, como são chamadas em Tok Pisin, a língua local. A violência contra elas é considerada normal no país. Uma grande porcentagem de homens locais não as respeitam, elas são constantemente espancadas e muitas vezes feridas com facões e machados. Os homens acreditam que, depois de ter pago o preço da noiva – seguindo a tradição local, os pais das mulheres recebem o dote – eles as possuem totalmente e podem tratá-las da maneira que quiserem, como se fossem um carro comprado.

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Vlad Sokhin é um fotógrafo russo que transita entre Portugal e Papua Nova Guiné e seu trabalho cobre assuntos sociais, ambientais e culturais ao redor do mundo. Nos últimos anos, Vlad tem focado em direitos humanos e as questões de saúde em muitos países em desenvolvimento, trabalhando em projetos pessoais e colaborando com as Nações Unidas e ONGs internacionais.

Conversamos com ele sobre seu projeto Crying Meri, que retrata a violência contra a mulher em Papua Nova Guiné. Confira abaixo a entrevista e algumas fotos, mas não deixe de visitar o site oficial AQUI para ver mais imagens e ler um pouco das histórias de cada uma delas.

Para adquirir o livro que resultou destas imagens e histórias, clique aqui.

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Papua Nova Guiné é mais conhecida no Brasil, pelo cenário idílico e sua cultura nativa. Como foi que você entrou em contato com este outro lado do país, o lado da violência brutal contra as mulheres?

É verdade que a Papua Nova Guiné tem uma incrível natureza, cultura, mais de 800 línguas e milhares de tradições. Mas, ao mesmo tempo, é um dos países do mundo, com níveis mais altos de violência contra as mulheres. Quando eu li relatos sobre isso fiquei chocado. E fiquei surpreso ao encontrar pouca evidência disso em foto também. Basicamente fotógrafos vão para lá para cobrir todas as festas, mas quase ninguém documentou o outro lado da vida no país, o lado que é terrível para as mulheres. Então eu decidi ir lá e tentar fazer isso sozinho. Foi assim que meu projeto “Crying Meri” nasceu.

As mulheres vivem em um terror constante e ficam em silêncio por medo de represálias. Como conseguiu aproximar-se e registrar todas as marcas da crueldade, em momentos íntimos assim?

Os Médicos Sem Fronteiras afirmam que o nível de violência contra as mulheres por lá, só acontece em outros lugares que são zonas de guerra. Então, é como se lá elas vivessem numa guerra todos os dias. Você nunca sabe quando e onde a violência pode acontecer. Eles podem ser abusadas na escola, mercado, em casa, enquanto estão dormindo ou no táxi. Isso pode acontecer durante o dia ou noite. E muitas dessas meninas e mulheres não podem pedir ajuda para a polícia, pois a polícia geralmente não consegue protegê-las. Muitas das vítimas não podem ir para refúgios, porque em muitas províncias não existem refúgios e nos locais onde eles existem as vagas são limitadas. Então, quando eu me aproximei de algumas vítimas e sobreviventes e perguntei se elas gostariam de compartilhar suas histórias através das fotografias, para muitas delas, foi uma chance de serem ouvidas. Eles confiaram em mim e na minha câmera e eu tentei mostrar o que acontece com elas com respeito e dignidade.

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A atenção internacional e um clamor público por cidadãos interessados ​​trouxe uma resposta por parte do governo, que passou a primeira lei do país que proíbe a violência doméstica, no ano passado. Foi possível observar uma mudança de hábitos entre a população de Papua Nova Guiné?

Ainda é muito cedo para dizer, pois as mudanças foram feitas em 2013. Até agora eu pude ver uma melhor cobertura da mídia local sobre este assunto, para que mais pessoas fiquem conscientes da situação. Mas mulheres e meninas ainda estão sendo estupradas, mordidas por seus maridos ou agredidas nas ruas por ‘raskols’ – as gangues locais. Acho que vai levar um bom tempo antes de alguns homens mudarem a forma como se comportam e começarem a respeitar as mulheres. Mas é bom saber que algumas mudanças já estão acontecendo agora.

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A ONU montou uma exposição fotográfica de seu trabalho na capital do país, Port Moresby, e a Anistia Internacional usou suas fotografias e histórias em uma campanha de educação pública. Muitas pessoas apoiaram o projeto do seu livro no Kickstarter. Você acredita que você tenha atingido o seu objetivo com este projeto?

Meu objetivo era aumentar a conscientização sobre essa terrível cultura de violência contra as mulheres e eu acho que minhas fotografias ajudaram. Elas apareceram não só em exposições e revistas ao redor do mundo ou mídia online. Houve marchas de protesto contra a violência na Papua Nova Guiné e Austrália. Milhares de pessoas participaram de protestos de rua, chamados de “National Haus Krai” – o termo local para “vigília e luto pelos mortos”. Em muitos desses protestos pessoas estavam segurando imagens de “Crying Meri”, pedindo ao governo para proteger as mulheres. Para mim, foi uma prova de que a fotografia ainda ajuda a mudar alguma coisa. Talvez ela não mude mais o mundo, mas pelo menos ajuda a melhorar algumas vidas. Quanto a ‘Crying Meri’, o livro,  foi publicado na semana passada em Istambul, e eu estou levando-o para Papua-Nova Guiné, no final deste ano. Eu espero que seja mais uma ferramenta para promover o fim da violência. Minha esperança é que os homens violentos do país possam ver o livro, com todas as imagens de suas mães, esposas, filhas, abusadas  e apenas dizerem “Parem, o que estamos fazendo?”.

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Dar visibilidade ao projeto Crying Meri é dar visibilidade para estas mulheres. Com quais outras formas você acredita, que podemos contribuir para que a violência contra mulheres possa diminuir?

Há muitas maneiras. Fotografia desempenha apenas uma parte visual disso. Mas acabar com a violência baseada no gênero pode ser alcançada através de muitas maneiras diferentes: melhor educação para homens e rapazes, treinar a polícia para lidar com esses casos, campanhas públicas e muitas outras coisas. Mas este não é um negócio para um fotógrafo. Eu só queria mostrar às pessoas – que é o que você faz com seu país. Agora cabe a eles, se eles querem mudar a maneira como tratam as mulheres, ou continuar a viver com a violência. Mas eu espero o melhor.

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ENGLISH VERSION

Papua New Guinea is better known in Brazil by the idyllic scenery and native culture. How have you had contact with another feature of the country, the brutal violence against women?

It is true that Papua New Guinea has amazing nature, culture, more than 800 languages and thousands traditions. But at the same time it’s one of the countries in the world with highest levels of violence against women. when I read reports about it I was shocked. And I was surprised to find little photo evidence of that too. Basically photographers go to PNG to cover all those festivals, but almost no one documented the other side of life in PNG, the one that is horrible for the women of the country. So I decided to go there and try to do it myself. That is how “Crying Meri”project was born.

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The Meri live in constant terror and keep silent for fear of reprisals. How did you approach them and registered these cruel marks in theis intimacy?

Médecins Sans Frontières state that in PNG level of violence against women is normally experienced only in war zones. So women there live like in everyday’s war. You never know when and where violence can happen. They could be abused in school, market, at home while they are sleeping or in the taxi. It can happen during the day or night. And many of those girls and women can’t ask police for help, as police usually fails to protect them. Many of victims can’t go to refuges, because in many provinces there are no refuges and in places where they are – places are limited. So when I approached some victims and survivors and asked them if they would like to share their stories though photographs, for many of them it was a chance to be heard. They trusted me and my camera and I tried to show what happens to them with respect and dignity.

International attention and a public outcry by concerned citizens brought a response by the government, which passed the nation’s first law prohibiting domestic violence late last year. It has been possible to observe a change in habits among the population of PNG?

This is too early to tell, as the changes were made in 2013. So far I could see better local media coverage of this issue, so more people are aware of the situation. But PNG women and girls are still being raped, bitten by their men or assaulted on the streets by ‘Raskols’ – the local gangs. I think it will take a long time before some men change the way they behave and start respecting women. But it’s good to know that some changes are already happening now.

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The United Nations mounted a photographic exhibit of your work in the capital of PNG, Port Moresby and Amnesty International used your photographs and stories in a public education campaign, many people backed the book project on Kickstarter. Do you believe you have reached your goal with this project?

My goal was to raise awareness about this terrible culture of violence against women and I think that my photographs helped to do so. They appeared not only in exhibitions and magazines around the world or online appeals. There were marches of protest against violence in Papua New Guinea and Australia. Thousands of people participated in street protests, called ‘National Haus Krai’ – the PNG Pidgin term for a wake and mourning for the dead. In many of these protests people were holding images from “Crying Meri”, asking PNG government to protect women. For me it was a proof that photography still helps to change thing. Maybe it does not change the world anymore, but at least helps to improve some peoples lives.
As for ‘Crying Meri’ book – it was published last week in Istanbul and I’m bringing it to Papua New Guinea in the end of this year. I hope it will be another tool to promote end of the violence. My hope is that violent PNG men can see the book, with all those images of their abuse mothers, wives, daughters in one place and just say “stop, what are we doing?”.

Giving visibility to the Crying Meri project, is giving voice to these women. In what other ways do you believe we can contribute to gender violence be reduced?

There are many ways. Photography plays just a visual part in it. But ending gender based violence can be achieved through many different ways: better educations to men and boys, training police to deal with such cases, public campaigns and many other things. But this is not a photographer’s business anymore. I just wanted to show people – that’s what you do in your country. Now it’s up to them if they want to change the way they treat women, or still live with violence. But I hope for better.

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Lila Varo

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Lila Varo, é produtora de conteúdo, editora do Mistura Urbana e mais um continente a sua escolha. lila[@]misturaurbana.com

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