[Entrevista] Marcelo Eco e sua essência que vem da rua - MISTURA URBANA

[Entrevista] Marcelo Eco e sua essência que vem da rua

Vila Isabel
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Marcelo Eco Marchon tem família de origem francesa, mas é na cidade do Rio de Janeiro, que esse artista nascido em São Gonçalo e morador do bairro da Tijuca tem suas maiores inspirações, que vem de todas as partes; seja da natureza exuberante da cidade maravilhosa, da vida na cidade, nas pessoas e nas viagens que faz pelo mundo. Para ele, a essência do graffiti vem da rua, e é na rua, o local que ele mais gostar de estar até hoje.

São 17 anos de carreira, desde o início na pixação até o graffiti, da infância à maturidade, das cores vivas ao estilo “menos é mais”. Esse artista que se reinventa a cada dia e gosta de ouvir o “feedback” das pessoas nas ruas, tem em seus personagens tridimensionais cheios de traços e formas, as suas ideias, expressões e reflexões sobre o mundo. Para ele manter o equilíbrio é essencial, a mente pode voar, mas os pés precisam estar no chão.

Confira o bate papo com ele:

1- Como vc se envolveu com a arte? E o graffiti?

No meu processo inicial eu comecei com a pixação, era uma vida meio “bandida”, mas só que eu já desenhava, esse era o diferencial da galera da pixação, eu subia nos prédios, nos lugares, mas sempre deixava um desenho. Chegou uma época, onde eu já fazia as duas coisas ao mesmo tempo e nesse momento ainda nao existia o graffiti no Rio de Janeiro, somente em São Paulo, e o acesso que tínhamos às informações era limitado, a internet era discada, enfim. O nosso material era mais ver filme. Porém, a falta de informação somou muito para que os artistas desenvolvem seus traços e deixou o pessoal mais criativo. Meu estilo é muito inspirado pelo RJ, pela arquitetura, um traço anguloso, com muita reta, muita curva. Eu acabei me atendo muito às pessoas, eu sempre observei muito as pessoas, acho que por isso meu desenho é muito figurativo. A minha marca e o que me apego muito é a coisa do estilo, porque acho que é assinatura da pessoa, você olha e sabe de quem é, quem fez.

2- O que você vê de mudança no graffiti nesse período?

O que muda hoje em dia é que o graffiti a partir do momento que foi pra galeria deixou um pouco de ser marginalizado, hoje nas ruas ele também é um pouco menos. Antigamente era pior. Antes usávamos tinta automotiva pra fazer graffiti, que não é algo próprio pra se fazer a arte. Eu acho que o que falávamos que era graffiti, hoje em dia mudou muito, a gente só usava spray, não usava pincel como muito artista utiliza agora. Para mim, o graffiti tem que estar na rua pra ser graffiti, quando entra pra uma galeria ja passa a ser uma arte contemporânea, e pra ser graffiti ele precisa do suporte da rua.

3- Prefere o trabalho na rua ao dentro da galeria então?

Se não fosse a rua meu trabalho não iria pra galeria. E no meu caso foi mais louco, porque eu comecei a fazer graffiti muito diferente das pessoas, hoje em dia a maioria quer ir pra galeria. Eu comecei pixando, eu gosto desse algo mais marginal, e dai fui me envolvendo nisso. Até hoje eu não gosto de pedir autorização para pintar, não quero parar, e isso me seduz. Essa é uma essência da rua. Eu chego no local, levo as minhas latas, dai vem o dono, eu começo a conversar, pergunto se quer que apague; então isso é o interessante. Eu posso pintar 1000 telas, não é a mesma coisa que a rua, eu posso fazer 1000 graffitis comerciais, que depois eu vou pegar minhas coisas e vou pra rua pra pintar. Isso é o que me move, é o meu ponto de fuga, o meu hobby, eu gosto de fazer graffiti independente do dinheiro, independente de tudo. Pra cada graffiti comercial eu quero fazer 1000 na rua.

4- Você participou junto com o Acme em um projeto no Museu de Favela no Rio de Janeiro. Conta um pouco sobre isso.

O Acme criou esse projeto lá na comunidade Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, e a maioria dos graffitis são meus e dele, como temos o traço de história em quadrinho, nos encaixamos bem porque tínhamos que retratar os moradores da comunidade. Um projeto meio que sem grana e que eu abracei e foi muito legal, deu super certo.

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6- Você ja teve oportunidade de viajar pra vários lugares do mundo. Qual lugar te marcou muito?

Um dos que mais gostei foi em Angola. Eu recebi um convite para o Projeto Aldeia Nissi, e fui para a província de Kuito-Bie, que está na região central de Angola, a parte mais afetada pela guerra. Então, eu via muita gente amputada. A cidade é destruída não somente pelos traços da guerra, mas por falta de iluminação, em todos os lugares é só gerador, com muito barulho. Eu achei fantástico quando cheguei lá e pude ver o dia a dia das pessoas, a realidade. É muito diferente a forma como eles lidam com a pobreza; você vê uma casa de pau a pique, mas o cara tem um carro importado na garagem. Lá, é muito normal, porque é comprado muito barato, está próximo a Dubai. As mulheres carregam tudo na cabeça, são muito guerreiras. Não tem muito comércio, tem muitas crianças. Eu fui pintar lá e fiz três paredes de 25 metros e não existe spray nesse local, então, quando eu levei, as crianças ficavam loucas olhando eu pintar. Pintei muito dentro da realidade deles: os animais, os tanques, as crianças, e só de estar ali junto de poder trocar com eles foi fantástico. Eu quis dormir lá na comunidade, não quis ficar em hotel. Coloquei uma barraca dentro de uma casa. E o lugar é lindo, o céu mais lindo que já vi, as crianças mais felizes que já vi, porque elas não têm nada, mas criam seus próprios brinquedos, e elas tinham um sorriso e olhos brilhantes, com gestos sinceros. Foram os 20 dias mais incríveis da minha vida. Eu achei que eu tinha ido lá pra ajudar, e fui muito ajudado. Marcou minha vida.

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Marcelo Eco Aldeia Nissi from LIBRE on Vimeo.

7- Você também tem um projeto que ensina a grafitar?

Na minha fase inicial eu dei muita aula, mas até hoje as pessoas pedem porque é raro ter um curso de graffiti, e as pessoas dão muito valor ao professor, a vivência dele. Uma vez por ano eu abro o curso, e sempre que está aberto na mesma semana fecham umas sete turmas. Hoje em dia eu abro pra no máximo três turmas conforme minha agenda, tem ano que não dou aula, pelo excesso de outros trabalhos. As aulas são 100% práticas, com somente duas aulas no atelier. Vamos pintar em paredes autorizadas, mas os alunos têm a vivência, conversam com os donos, etc. E é legal ver a troca, é muito rápida. São diversas pessoas que estão pintando muito. Eu acho fantástico porque tenho um super orgulho, estão desenvolvendo e colocando em prática. São dois meses de aula, totalizando oito aulas.

8- Fale um pouco dos seus personagens.

É um diferente do outro e eu não repito a posição deles. Os personagens mais antigos já tinham essa coisa do queixo, eu sempre olhei tudo e fui fazendo a junção, vendo os elementos. Antigamente eu me segurava muito com a cor, eu fazia realismo asbtrato somente pelas cores, mas dai queria fazer algo que as pessoas reconhecessem pelo traço. Um certo dia, tive que usar preto e branco, e o cara disse, “legal que dá pra ver que é seu”, pelo traço já reconheciam. Hoje em dia, eu uso qualquer cor. Claro que tenho as cores preferidas, e tenho usado muito o laranja, o laranja com azul, vou intercalando. E pelas cores as pessoas também identificam. Branco, tons de cinza, azul e laranja, vou usando conforme a necessidade. Eu comecei a fazer o desenho mais magro, com queixo pontudo, que é a marca que todo mundo identifica, na criação dele, eu ouço muito, eu tô na rua, e gosto de ter o feedback das pessoas com os meus desenhos. Tem a linha do tempo do personagem, a criação dele toda. Por isso eu costumo falar, a rua formou meu estilo, a rua foi minha escola, ela me mostrou todos os caminhos pra minha arte, é muito urbano o que faço, minha escola é essa.

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9. Eles também são tridimensionais, os personagens ou entram ou saem das paredes. O que você quer passar com eles?

Eu acho que todo mundo tem várias fases. Tem época que meu personagem fica mais político, tem época mais espiritual, tem fase que estamos mais ligados com Deus. Eu gostava muito de escrever nos meus desenhos, as cores, tudo; tinha fase que eu fazia muitas raízes também, muitas árvores, e essas raízes eu peguei como elemento, porque muitas vezes os personagens pareciam que estavam amarrados e depois começavam a sair das paredes. Eu gosto dessa coisa do 3D, acho que dá um diferencial grande no desenho, eu costumo dizer que o desenho é simples, os traços são simples, mas eu tenho um estudo de luz e sombra muito forte. Eu não faço o desenho antes, eu tenho tudo na parede, e não tenho esquete. A pintura é freestyle na criação do desenho, eu erro muito, e gosto de errar. Paro na frente da parede e faço o personagem em várias posições diferentes. Acabou sendo minha espcialidade, o desenho 3D, o traço rápido, a perspectiva, a luz e a sombra. O traço reto tem que ser rápido.

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10- Em qual fase seus personagens estão?

Nós temos vivido uma fase política muito forte, não tenho escrito muito. Tem essas caras que eu faço que usam a máscara, e o ruim é que a prefeitura tem apagado todos os graffitis de protesto. Eu tenho usado menos vozes na minha arte, a voz tem sido mais através de alguma expressão do desenho, o próprio rosto do personagem, também tenho usado poucas cores, estou na fase do “menos é mais”, muito mais simples. Desconstruí muito o personagem, tirei muitos detalhes, meu trabalho se despiu muito, eu acho que na real, é também um sinal de amadurecimento, acho que é o equilíbrio, de buscar Deus, ter a parte da crítica, ter a parte visual, a estética, são várias percepções, tem as viagens que faço também, procuro agregar esses elementos. As viagens me dão muitas informações, então acaba sendo um imã. Vamos esculpindo e sendo esculpidos com o tempo. Eu sou o que sou pelo meu trabalho com o graffiti. Ter o reconhecimento pela minha arte é muito legal, ser simples, não ser nariz em pé, tem que manter um equilibrio, a mente pode voar, mas os pés precisam estar no chao.

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11- Fale do seu amor pela Tijuca, o bairro onde você mora há oito anos, é também o local com mais obras né?

A Tijuca é colada no centro, mas é próxima à praia, tem também a floresta da Tijuca, e a praia fica à 20, 30 minutos, mas é muito mais urbana. Aqui as classes sociais são muito divididas, e eu gosto muito das forma dos tijucanos de serem, por causa da personalidade. A Tijuca tem a ver com a minha vida, é o bairro que tenho mais graffiti, e aqui tem muito lugar pra pintar, eu tenho muita parede, eu acho que é a questão da identidade, tudo é moldado através do local e tudo contribuí para a formação do artista.

12 – A música ajuda a criar?

A música é a trilha sonora da criação, eu sou muito eclético, e dou muito valor a nossa música popular, eu ouço muita música pernambuca, eu amo Recife, pra mim é a melhor cidade do Nordeste, em termos culturais, pela natureza, as pessoas. E a música de lá eu gosto demais. Eu ouço muito drum bass também, quando eu estou lento demais coloco algo rápido, quando estou rápido demais algo mais lento. A música ajuda conforme a necessidade do trabalho. Meus vídeos combinam muito com rock, gosto de colocar um funk de zoação à vezes, porque sou carioca e o funk pra gente é coisa de infância, a gente gosta de ouvir as antigas pra ficar zoando um ao outro. Para mim não sendo brega, nem sertanejo, nem axé eu ouço tudo. Até prefiro quando vou aos locais, peço pra que as pessoas coloquem as músicas que elas gostam. Eu gosto de receber o local assim.

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13- Lugar que nunca foi e que gostaria muito de ir pra pintar.

Vou pra Europa agora. Marsella na França, Milão, Roma Veneza, Berlin, Amsterdam e Paris. Os países da Itália eu não conheço, nunca fui pra lá, e sempre quis ir. No meio disso tem a Suíça, que também tenho muita vontade, pois a origem da minha família “Marchon”, é a parte francesa da família. Quero ir muito por conta disso. Sempre quis conhecer a Itália, e acho que o Japão também que é muito diferente. Na real, todo o país que não fui eu tenho vontade. Bangladesh é outro. Tenho vontade de conhecer culturas diferentes, essa mistura, mistura urbana né? Eu vou pra pintar em eventos e o restante pra espairecer. Aproveitar que estarei pintando pra conhecer.

14- O que é em essência ser um grafiteiro pra você?

É pintar na rua, amar a rua, amar o urbano, viver a rua. A rua é uma selva, então numa selva quando você entra tem que respeitar os seres que vivem ali, você tem que preservar as coisas que estão ali, os espaços, o território, tem que saber agir em todos os momentos com essa selva. Saber extrair dela, replantar, o graffiti ele é isso, eu tiro um graffiti, coloco outro, tem que saber respeitar os processos naturais de uma civilização. Tem que ser selvagem, mas ter que ser civil, e ao mesmo tempo tem que ser racional. A melhor palavra é a selva, a selva de pedra e a selva natural. Esse é o processo, nunca deixar de pintar na rua, se você larga a rua, perde a indentidade. Eu faço o que amo. Há 17 anos eu pinto da mesma forma, nunca deixei o ritmo e vou pra rua toda semana, esse foi meu início e esse vai ser meu fim. Eu poderia estar pintando uma tela pra fazer uma exposição, mas eu estou pintando na rua, é um vício e tenho muita necessidade de pintar na rua, é a mistura urbana.

15- Deixe um recado aos leitores que curtem seu trabalho.

Viva o que quer, viva os seus sonhos, acredite neles para torná-los realidade. Eu vivi o momento, e esse momento está sendo eterno, é um sonho que é uma realidade. O tempo passa muito rápido, então você tem que apostar naquilo que gosta. Muitas vezes temos que deixar de ser racional, pra viver, tem que deixar o sonho te levar, te encaminhar, deixar a loucura te guiar um pouco.

Mais sobre ele: www.marceloeco.com e www.instagram.com/marceloeco

Johnnie Walker – ECONIEMEYER from Bruno Bastos on Vimeo.

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Natt Naville

Natt Naville

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Natt Naville é jornalista e gosta de tudo que envolve o universo da comunicação. Entre palavras e histórias: Música. Música para tocar, para ouvir e dançar. Editora do Mistura Urbana, gosta de criar, recriar e se reinventar. Vive no paraíso azul da Grécia.

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  1. […] no Rio de Janeiro. Nós gostamos muito do trabalho dele, e tivemos a honra de fazer uma super entrevista com o grafiteiro carioca, que tem 17 anos de carreira, e é conhecido por seus personagens […]

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