Entrevista: Cultura Lowride no Brasil

De Los Angeles para o Brasil :: documentando a cultura lowrider

southamericancholo
foto de Adalberto Rossette

Após uma longa espera, saiu o trailer oficial do documentário South American Cholo, dirigido por Phuong-Cac Nguyen, que examina a cultura chicana de São Paulo. O filme apresenta entrevistas com personalidades e ícones importantes, como Estevan Oriol, Duel, Luiz Gordo e Alemão, levando o espectador para o universo dos lowriders, tatuagens, da religião e da moda. O documentário também explora a paixão destes personagens pela cultura chicana e como vêem semelhanças entre eles e aqueles que vivem a vida no leste de Los Angeles.

Conversei com a diretora do documentário, Phuong-Cac Nguyen, que, lá de Los Angeles, me respondeu algumas perguntas sobre o filme. Confira!

1) Você é de Los Angeles, descendente de orientais e morou alguns anos em São Paulo. Qual foi a sua reação ao encontrar a cultura lowrider aqui no Brasil, assim que chegou aqui?
Eu fiquei muito surpresa, por que eu nunca soube da cena lowrider no Brasil. Japão e Alemanha, sim, mas não no Brasil. Então eu me interessei bastante em contrastar e comparar a cultura lowrider do Brasil com a que eu estava acostumada, por ter crescido nos subúrbios de L.A. e mais tarde, por escrever sobre subculturas como  jornalista.

2) Nos Estados Unidos, a cultura cholo surgiu nos grupos de ascendência mexicana ou mexicano-americano, geralmente relacionados a gangues e grupos de baixa renda. Aqui no Brasil, sabemos que comprar um carro não é das tarefas mais fáceis por causa do preço alto, até de um usado. Com certeza pimpar um deles não é a coisa mais barata. Quais são as maiores similaridades e diferenças entre a cultura cholo brasileira e a mexicano-americana?
Preciso esclarecer – nem todos os lowriders são parte de gangues, e obviamente, nem todos os membros de gangues são lowriders. Existe, no entanto, um crossover. A cultura lowrider do Brasil pega muitas simbologias da cultura de L.A. e da Chicano, como a religião católica, a lealdade ao clube do carro ou bicicleta, o elemento do orgulho e valores de família. Os Latinos de Los Angeles possuem uma situação muito diferente, onde a violência as vezes entra em cena na forma de vida de gangue, e o panorama econômico é diferente em L.A. por que os carros e partes de carros são mais baratos do que no Brasil.

foto de Adalberto Rossette
foto de Adalberto Rossette

3) Como foi que aconteceu essa migração da cultura lowrider chicana para o Brasil?
Cada lowrider tem uma história diferente de como ele foi introduzido pela primeira vez na cultura. Alguns chegaram através de amigos e outros morando fora; outros viram algo em alguma revista ou TV e então decidiram investigar um pouco mais. A cultura lowrider está com certeza crescendo. Mais pessoas estão apendendo sobre ela na internet. Ela faz parte da globalização de subculturas em geral.

4) Muitos “cholos” brasileiros possuem tatuagens de gangues de L.A. Existe este mesmo movimento de gangues aqui no Brasil ou as tatuagens são mais para homenagear e decorar?
Não, não existe este tipo de gangue no Brasil. No Brasil, a violência é entre policiais e traficantes, em sua maior parte. É uma dinâmica totalmente diferente da de Los Angeles. Na verdade, isso é o que eu achei tão interessante sobre os cholos no Brasil – que esta cultura pode realmente proliferar de uma forma positiva, sem a necessidade de armas e guerras territoriais.

5) Existe alguma forma de rivalidade entre os cholos oldschool e os que entraram recentemente nesta esfera? Sim, com certeza, e você realmente acha isso que em qualquer subcultura, seja de skate, surfe, etc. Há aqueles que têm medo de os novatos diluírem algo pelo qual eles trabalharam tanto, e os mais novos se ressentem pelos oldschool serem hostis.

foto de Adalberto Rossette
foto de Adalberto Rossette

6) Qual a história que ouviu ou pessoa mais interessante que conheceu durante as filmagens. Por que?
O Alemão foi provavelmente o mais interessante. Ele tem um papel importante em tudo isso – só por sua idade e pelos contatos que tem fora do Brasil que deram para ele as ferramentas e o conhecimento para masterizar a cultura localmente. Um dos entrevistados chama o Alemão de “Embaixador da cultura chicana no Brasil”, e eu acho que isso é uma descrição bastante precisa. Eu também acho que os Martins são uma família bastante interessante, por que usam uma abordagem através da caridade na cultura lowirder, onde levam as bicicletas para as favelas para as crianças andarem, e também dão presentes, entre outras coisas.

7) De onde surgiu a ideia de filmar sobre a cultura lowrider do Brasil?
Eu tinha planejado, originalmente, escrever um artigo sobre a cultura Chicana no Brasil, mas tive que colocar o projeto de lado por alguns anos, porque eu não tinha muito tempo para ir atrás das histórias. Mas em 2012, percebi que seria muito melhor mostrar às pessoas fora do Brasil as pessoas por trás da cultura e deixá-los falar por si mesmos. Eu acho que estou certa – filme tornou-se um meio muito popular para apresentar ideias e é uma forma que é facilmente acessível para o público.

foto de Adalberto Rossette
foto de Adalberto Rossette

8) Qual a importância deste filme?
Honestamente, quando eu fiz este filme, ele deveria ser apenas um pequeno projeto. Eu não esperava tivesse o alcance que ele teve. Ele já foi destaque no NY Times e Public Radio International, por exemplo, e nós ainda nem lançamos o filme ainda – tudo foi baseado no teaser e trailer do filme que soltamos até agora. Temos trabalhado nisso há muito tempo, no nosso tempo livre (todos nós temos cargas de trabalho pesadas em nossos trabalhos no dia-a-dia), e tive a perspectiva e pude ver claramente que este filme acrescenta outra dimensão à já forte cultura lowrider.

9) Qual a maior dificuldade : captar imagens , entrevistar as pessoas das gangues ou o trabalho de pós produção ? Porquê?
A pós-produção foi mais difícil porque queremos ter certeza de que estamos contando uma história interessante e que traga algo de novo, tanto para pessoas já familiarizadas com a cultura, quanto as que estão sendo expostas a ela pela primeira vez. Além disso, no documentário, você constrói a história depois de que tudo for filmado, de modo que foi um desafio.

10) Como vê essa história daqui a alguns anos?
Boa pergunta. Eu fiz a mesma pergunta a alguns dos entrevistados do filme e eles prevêem que haverá mais oportunidades para o intercâmbio cultural entre lowriders fora do Brasil. Mas, falando sério, o Brasil precisa fazer algo sobre os impostos de importação exorbitantes. Isso é uma grande barreira para quem se interessa por essa cultura.

foto de Adalberto Rossette
foto de Adalberto Rossette

 
ENGLISH VERSION
1) You’re from Los Angeles, descendant of asians and lived several years in São Paulo. What was your reaction to finding the lowrider culture here in Brazil, when you arrived here? 
I was really surprised, because I never knew there was a lowrider scene here. Japan and Germany, yes, but not Brazil. Then I became really interested in contrasting and comparing the lowrider culture in Brazil with the one I was used to seeing as I grew up, in the suburbs of L.A., and as an adult as a journalist covering subcultures.

2) In the United States, the cholo culture emerged in groups of Mexican or Mexican-American descent, usually gang-related and low-income groups. Here in Brazil, we know that buying a car is not the easiest of tasks because of the high prices, even a used one. Surely , pimping one is not the cheapest thing. What are the major similarities and differences between Brazilian and Mexican-American cholo culture?
I have to make it clear — not all lowriders are gang members, and obviously, not all gang members are lowriders. There is, however, sometimes a crossover. The lowrider culture in Brazil takes many of its cues from L.A. lowrider and Chicano culture, such as the Catholic religion, a loyalty to the car or bike club, the element of pride, and family values. The Latinos in LA have a much different situation, where violence does sometimes enter the picture in the form of gang life, and economically the landscape is different in LA because cars and parts are cheaper to come by than in Brazil.

3) How did the Chicano lowrider culture arrive in Brazil?
Each lowrider has a different story of how he was first introduced to the culture. Some were exposed to it via friends who were living abroad; others saw something in a magazine or TV and then decided to investigate further. Lowrider culture is certainly growing; more people are learning about it through the Internet. Lowrider culture is part of the globalization of subcultures in general.

4) Many brazilian “cholos” have L.A. gang tattoos. Is there a movement of gangs here in Brazil or are they something more to honor and decorate? 
No, there’s not this type of gang in Brazil. In Brazil, the violence is between cops and drug dealers, for the most part. It’s a totally different dynamic in L.A. In fact, that’s what I found so compelling about the cholos in Brazil — that this culture can really proliferate in a positive way, without the need for guns and turf wars.

5) There is some form of rivalry between the oldschool cholos and those who have recently entered this world? 
Yes, definitely, and you do indeed find that in any subculture, whether it’s skate, surf, etc. There are those who are afraid of the newbies diluting what they feel they’ve worked so hard at, and the newer ones resent the old schoolers for being unwelcoming.

6) What’s the most interesting story you heard or most interesting person you met during filming. Why? 
Alemão was probably the most interesting. He has a strong role in all of this — just by his age and having contacts outside of Brazil that gave him the tools and knowledge to champion the culture locally. One of the subjects calls Alemão the ambassador of Chicano culture in Brazil, and I think that’s a very apt description. Also, I found the Martins family very interesting, because they take a charity approach to lowrider culture, in which they bring the bikes to kids in the favelas and let them ride the bikes, as well as give them toys and other things.

7) Where did the idea of filming the brazilian lowrider culture come from? 
I had originally planned to write an article about the Chicano culture in Brazil but had to put the project off for a few years because I didn’t have much time to pursue the reporting side of it. But in 2012, it came to me that this would be much better to show people outside of Brazil the people behind the culture and let them speak for themselves. I think I’m right — film has become a very popular medium to showcase ideas and it’s a way that’s easily accessible to the public.

8) What´s the importance of this film?
Honestly, when I made this film, it was intended to be just a small project. I didn’t expect the project to have the reach that it has experienced today — we’ve been featured in the NY Times and Public Radio International, for instance, and we haven’t even released the movie yet — everything’s been based on the teaser and trailer of the film. Now that we’ve worked on this for so long, in our free time (we all have heavy workloads at our day jobs), I can step away and see clearly that this film adds another dimension to the already-strong lowrider culture.

9) What´s most difficult: filming, interviewing or post-production? Why? 
The post-production was most difficult because we wanted to make sure we told a story that was compelling and brought something new to the table, both for people already familiar with the culture and those who are being exposed to it for the first time. Also, in documentary filmmaking, you build the story after everything is filmed, so that was a challenge.

10) How do see this story in a few years?
Good question. I asked the same question to some of the subjects in the film and they predict there will be more opportunities for cultural exchanges between lowriders outside of Brazil with the ones here. But seriously, Brazil needs to do something about the exorbitant import taxes. That’s a huge barrier to people picking up on this faster.

Comments

comments

Lila Varo

Lila Varo

Veja todos os posts

Lila Varo, é produtora de conteúdo, editora do Mistura Urbana e mais um continente a sua escolha. lila[@]misturaurbana.com

2 Comentários

Junte-se a conversa →

  1. […] (que finalmente terá sua premiere no dia 14 de agosto em Los Angeles!). Se você perdeu, clica AQUI e confira o trailer e nossa entrevista com a […]

  2. […] uso de linguagem popular e diversidade de gestos, a Matilha irá exibir o mini-documentário South American Cho-Low, dirigido pela jornalista americana Phuong-Cac Nguyen, dia 10 de março, terça-feira com […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *