O fantástico mundo do Wes Anderson - MISTURA URBANA

O fantástico mundo do Wes Anderson

Snap 2014-03-26 at 13.55.56

texto de Berenice Rocío Taboada Díaz

O cineasta estadunidense tem vários filmes carregados de detalhes que os conferem uma autenticidade peculiar. Embora, quando as pessoas lhe perguntam sobre seu estilo, ele responda que “nem mesmo sei o que é”, todos, TODOS os seus filmes, tem alguns traços autorais através das quais vocês pode detectar que está assistindo um filme do diretor texano.

wes-anderson

Conheça algumas das marcas registradas de um dos caras mais adorados do cinema contemporâneo indie!

1. Os atores estrela

Como Diane Keaton para Woody Allen ou Johnny Depp para Tim Burton, Wes Anderson também tem suas “musas” preferidas. Se você ler os créditos dos seus filmes, provavelmente notará certas repetições no elenco. Owen Wilson, Jason Schwartzman e Bill Murray são alguns das figurinhas exageradas que frequentemente aparecem em suas obras.

wes-anderson-bill-murray

Wes Anderson conheceu o primeiro (Owen Wilson) no curso de filosofia na Universidade do Texas e lá começou uma profunda amizade com um dos principais parceiros de filmagem e roteirização até hoje. O segundo, Jason Schwartzman, fez parte também na produção dos roteiros dos primeiros três filmes de Anderson (Pura Adrenalina, Três é Demais e Os Excêntricos Tenenbaums), mas o seu ator verdadeiramente preferido parece ser Bill Murray. A voz de Badger em «O Fantástico Senhor Fox» participou de todas as obras do diretor (geralmente fumando tabaco e bebendo uísque em algumas cenas). Numa entrevista online, ele expressou: “Não é como se você estivesse trabalhando com algum valentão ou algum fanfarrão. Wes, Sofia, esse cara Jarmusch – estas são pessoas que tem a ver com o cinema realmente”.

2.  A música

Junto com o protagonismo dos seus atores-musa, às vezes o que também destaca dos seus filmes são as trilhas sonoras. Ao longo de sua trajetória cinematográfica, você poderá ouvir tanto músicas mais rockeiras, como as do começo de sua carreira (os Rolling Stones, Bob Dylan, The Kinks e  David Bowie são apreciados nas trilhas de Três é Demais e Os Excêntricos Tenenbaums) e também as mais românticas e delicadas do pop francês, como Elliott Smith, Nico, Cat Stevens e Françoise Hardy.

Destacam-se como momentos memoráveis: as músicas de Seu Jorge criadas especialmente para o filme Vida Aquática, a dancinha coletiva no Fantástico Senhor Fox, (na qual todos os animais celebram no supermercado ao ritmo de “Let Her Dance” de The Bobby Fuller Four), quando a Margot Tenenbaum, interpretada por Gwyneth Paltrow, desce do ônibus acompanhada pela canção “These Days” de Nico, para se reencontrar com seu irmão; e quando as duas crianças de Moonrise Kingdom dançam na beira do mar uma espécie de dança do amor ao som da canção francesa “Le Temps de L’Amour”, de Françoise Hardy.

20-Moonrise-Kingdom

3. Inspiração dos clássicos da literatura infanto-juvenil

A maioria das histórias do Wes tem um quê de fantasia e ingenuidade, dignos do mundo da imaginação infantil. É por isso que muitas das suas produções são inspiradas em contos famosos. O filme O Fantástico Senhor Fox, por exemplo, é uma adaptação do livro Raposas e Fazendeiros, do galês Roald Dahl. Aí Wes utilizou o stop-motion para dar vida a esses bichinhos, criados no mesmo estúdio de Londres por muitos dos caras que fizeram o Corpse Bride, do Tim Burton.

fantastic-fox-critica-anderson

Mas também podemos reconhecer nos seus filmes clássicos como O Apanhador do Campo de Centeio, de J. D. Salinger, ou Moby Dick, de Herman Melville.

4. Referências cinematográficas

É evidente que o universo onírico do Anderson tem influência dos mestres do cinema. Em todas suas obras, podem-se encontrar referências ao diretor indiano Stayajit Ray (em Viagem a Darjeeling); a Jean-Luc Godard com o clássico O Demônio das Onze Horas (em Moonrise Kingdom: ambos têm fotografia cheia de cores e narram a fuga de um casal cansado da mesmice de sua sociedade), ao famosíssimo Orson Welles (“He’s always been one of my very favorite directors (…) He’s one of my heroes”, falou Anderson) e a Francois Truffaut.

wes-anderson-viagem-a-darjeeling

Sobre Wells, Anderson expressa:“adoro como trabalha com crianças, como ele conta aproximando-se as seus olhos (…). Mas os dois filmes que realmente me influenciaram são britânicos: ´Melody´, que conta a história de dois pré-adolescentes que querem se casar, e ´Blackjack’, que deve ser o menos conhecido filme de Ken Loach”.

5. A similaridade com peças de teatro

Durante a infância, Anderson começou a escrever peças de teatro e fazer filmes em Super 8. “Eu sempre quis trabalhar no teatro. Eu sempre senti o glamour de estar nos bastidores (…). Eu sinto que talvez o teatro é uma parte do meu trabalho no cinema”. Eis que a cortina ficou como um personagem constante na obra de Wes Anderson.

moonrise11

De fato, em Os Excêntricos Tenenbaums os cenários são apresentados como se tivessem sido montados  num palco  e a abertura de uma cortina vermelha dá início à apresentação dos personagens de Vida Marinha com Steve Zissou.
Estes cenários teatrais unem pessoas também. Por exemplo, em Moonrise Kingdom Sam conhece Suzy numa peça teatral para a qual a moça se preparava e iniciam um belo e puro relacionamento, fomentado por trocas de cartas.

6. A importância das crianças

As crianças sempre sabem o que querem. Há uma simplicidade em seu modo de pensar, a falta de preconceito, o que os liberta de todas as pressões dos adultos. Elas podem estar erradas, mas geralmente o fazem sem se sentir culpa por isso”.

Moonrise Kingdom é o primeiro filme do diretor a apresentar protagonistas crianças. Ele narra uma paixão pré-adolescente do casal Suzy e Sam, que fogem para uma ilha deserta e paradisíaca —chamada Moonrise Kingdom— para viver o primeiro amor.

moonrise-kingdom

Além do ar sem preconceitos, as crianças incorporam ao filme objetos engraçados, de aventura, como binóculos, walkie-talkies, armas de brinquedo, notas manuscritas ou casas de árvore. Este último aparece muito em O Fantástico Senhor Fox e nos Excêntricos Tenenbaums (Margot escreve uma peça chamada “As Levinsons nas árvores”). Em entrevistas, Anderson disse que não tinha certeza de onde essa obsessão veio, mas que ele ficou muito tempo fascinado com a novela do Johann David Wyss “A família suíça Robinson”, uma família que naufraga nas Índias Orientais e constrói um número de estruturas para sobreviver, incluindo uma casa na árvore.

7. Cores, cores e mais cores!

Wes Anderson é um diretor que quase não tem fotografias escuras, frias ou acinzentadas. Ele usa tanta cor que ainda abusa dela. Amarelo, laranja, castanha e cores pastéis/vintage são cuidadosamente planejados na sua paleta de cores, que é altamente saturada, com muitos tons de bege.

w-1

Embora ele seja considerado por alguns críticos um esteticista e não um diretor, que cria mundos cheio de penduricalhos, a sua saturação da imagem faz que todas essas cores brilhantes e frias mudem até os tons mais cálidos e suaves.

8. Famílias disfuncionais

Se você esperava se encontrar com a família tradicional mesmo, formada por papai, mamãe e filhinhos com alguns assuntos a resolver, então não assista um filme do Wes. No caso de Os Excêntricos Tenenbaums, por exemplo, a família se reúne pelo retorno do pai após 22 anos de ausência, que afirma ter uma doença terminal.

os-excc3aantricos-tenenbaumds

No Viagem a Darjeeling, três irmãos se encontram em um trem que viaja por toda a Índia a fim de restabelecer laços.
E em Vida Aquática, também temos outra família disfuncional, estrelada por Bill Murray e Owen Wilson.

9. Diálogos estranhos

O mundinho do Wes também tem muitos personagens interessantes, que dizem as coisas mais inverossímeis que nenhum ser humano na história dos seres humanos jamais diria fora de um filme. A linguagem escolhida pelo diretor vem a ressaltar sua proposta de cinema inverossímil: diálogos estranhos e um humor de sutilezas, com toques de nonsense, onde o espectador nunca sabe o que irá assistir ou ouvir em seguida.

margot

O universo do Wes tem muitas restrições – ele é muito particular na pronúncia, no ritmo do diálogo que quer – e encoraja-nos a explorar e procurar ao longo de inúmeros takes”, expressou Ralph Fiennes, o ator britânico do seu último filme, Grand Budapest Hotel.

Esta linguagem excêntrica marca aos diferentes filmes:

Os Excêntricos Tenenbaums
Chas Tenenbaum: Você sabe, Rachel está enterrada lá também.
Royal Tenenbaum: Quem?
Chas Tenenbaum: Minha esposa.
Royal Tenenbaum: Ah. É isso mesmo, não é? Bem, nós vamos ter que passar por seu túmulo também.

Três é Demais
Max: Então, você estava no Vietnã?
Blume: Yeah.
Max: Você estava na merda?
Blume: Sim, eu estava na merda.

Moonrise Kingdom:
Sam: Que tipo de pássaro é você
Suzy: Eu sou um corvo

Comments

comments

1 Comentários

Junte-se a conversa →

  1. […] mundinho do Wes Anderson tem personagens interessantes, que dizem as coisas mais inverossímeis que nenhum ser humano na […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *