MIRROR - ESPELHO - MISTURA URBANA

MIRROR – ESPELHO

A Galeria Contempo recebe as obras do artista Eric Jossson para sua exposição individual que estreia no dia 7 de agosto às 20 horas ao som de Piero Chiaretti, Andre Pollak, Ugui e Arjana. Acabei de receber o convite e gostei muito do texto do Mario Gioia que descreve as obras do cara, ambos super talentosos. :)

Rua Mourato Coelho, 1246 – Vila Madalena (São Paulo – SP)
De Terça à sexta, das 10 às 19 horas.
mais infos: www.galeriacontempo.com.br

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FLYING SAUCERS IN THE SKY

O universo visual de Eric Frizzo Jonsson se move entre bordas muito fluidas. Em fase recente de sua pintura, paisagens estranhas fragilmente se descortinam (ou se desmancham, ante o olhar algo atônito do observador?), figuras perturbadas se manifestam, cores dispostas num panorama caótico escorrem para baixo, com lentidão. Já os vídeos baseados em “O Espelho” (1975), de Andrei Tarkovski (1932-1986), também se fundamentam na impermanência, mas de modo mais assentado que sua última produção pictórica.

“De que modo o tempo se faz sentir numa tomada? Ele se torna perceptível quando sentimos algo de significativo e verdadeiro, que vai além dos acontecimentos mostrados na tela; quando percebemos, com toda clareza, que aquilo que vemos no quadro não se esgota em sua configuração visual, mas é um indício de alguma coisa que se estende para além do quadro, para o infinito: um indício de vida”1, argumenta o cineasta russo a respeito de “O Espelho”. O filme, por meio do protagonista Alexei, entrelaça lembranças do diretor e a história do país natal.

Jonsson, assim, assume um tipo de coleta desses vestígios vitais, dessas memórias que se situam entre o prosaico e o extraordinário, como a moldar tempos brutos de maneiras diversas. Se é o fragmento que seduz nas pinturas de gestos largos e livres e são as composições mais pausadas dos planos (e do extracampo) nos vídeos, a fotografia, agora, provoca novos e fecundos sentidos em sua produção.

Nessa linguagem, a matéria a ser trabalhada pelo artista paulistano não é incomum. Registros antigos, buscados em feiras de antiguidade, descartes familiares e afetivos oferecidos por pouco em pilhas volumosas nas bancas. Esse amontoado algo poeirento e em sépia ganha intervenções autorais de Jonsson. A atmosfera ambicionada pelo artista se dá por cores que flertam com o choque _ violetas a berrar, verdes a incomodar _ e terminam por constituir algo artificial, não natural. Parece, então, que um enredo “sci-fi” contamina a visualidade dessa obra, como se a escrita de Huxley, K. Dick e Bradbury, entre outros, fincasse influências duradouras nos resultados plásticos do paulistano.

“Agora via a lua baixa. A lua ali, e a luz da lua provocada pelo quê? Pelo sol, é claro. E o que ilumina o sol? Seu próprio fogo. E o sol continua, dia após dia, ardendo sem parar. O sol e o tempo. O sol e o tempo e o fogo. O fogo. O rio o transportava, embalandoo suavemente. O fogo. O sol e todos os relógios da terra. Tudo se juntava e se tornava uma coisa só em sua mente”2, escreve Ray

Bradbury em “Fahrenheit 451”. Tal visão distópica presente no livro é responsável por forjar um gênero político, como a apontar que o melhor da ficção científica não é criar mundos imaginários e distantes, com seres fantásticos, e, sim, comentar agudamente possíveis desdobramentos do hoje, em geral nada positivos. Esse estado de espírito é evidente na poética de Eric Frizzo Jonsson, cujas figuras entremeadas a raios, luzes, cores, céus marcados pelo temor e respiração sufocada indicam que algo não vai bem.

por: MARIO GIOIA

1. TARKOVSKI, Andrei. “Esculpir o Tempo”. São Paulo, Martins Fontes, 2010, pág. 139.
2. BRADBURY, Ray. “Fahrenheit 451”. São Paulo, Globo, 2012, pág. 174.

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