Fazendo a cabeça - MISTURA URBANA

Fazendo a cabeça


Nos últimos meses algumas polêmicas envolvendo a textura dos cabelos ganharam visibilidade nas redes sociais.

Em janeiro a marca de produtos para alisamento de cabelos Cadiveu provocou polêmica após a publicação de um álbum no Facebook de uma ação de marketing realizada na Beauty Fair 2012 que consistia em fotos de pessoas com peruca black power segurando um cartaz com o texto “Eu preciso de Cadiveu”. Da polêmica surgiu os tumblrs colaborativos Não Preciso de Cadiveu e Duro É O Seu Preconceito, com fotos de pessoas que consideraram a campanha ofensiva exibindo com orgulho seus cabelos crespos. O coletivo Meninas Black Power, que tem como objetivo promover a beleza do cabelo crespo e motivar a identidade negra na vivência de cada pessoa que busca se reconhecer, também manifestou seu repúdio com a ação da Cadiveu.

Também em janeiro o blog do Hospital e Maternidade Santa Joana, de dicas médicas, postou a pergunta de uma mãe que queria alisar o cabelo muito crespo da filha e questionava a idade ideal para realizar o procedimento. Em resposta foi postado que “muitas mães recorrem a essas alternativas para deixarem as crianças mais bonitas, e alertou sobre os perigos do formol e outros componentes químicos mas em nenhum momento foi feito um aconselhamento para busca de orientação psicológica, a fim de evitar transtornos de imagem na criança, considerada feia por ter os cabelos crespos. A postagem foi retirada do ar, as postagens de protesto na fanpage da maternidade foram apagadas e a justificativa foi que tudo não passou de um mal entendido.

Recentemente o estilista Ronaldo Fraga realizou um desfile no qual as modelos utilizavam uma peruca de palha de aço e isso foi traduzido como uma homenagem às origens negras do brasileiro e considerado pela Vogue uma aposta inusitada. Após o desfile se tornar polêmica a revista Marie Claire saiu em defesa do estilista, afirmando que seu desfile foi capturado pela patrulha do politicamente incorreto. O coletivo Meninas Black Power se posicionou sobre o tema: “não interpretamos como homenagem e não achamos que isso contemple nossa ancestralidade de forma alguma.” 

“Fazer analogia do bombril com o cabelo negro, é nos remeter a uma situação racista e constrangedora. Onde o negro tem seu núcleo básico de força abalado, ou seja: AUTO-ESTIMA, que foi e é alvo desde sempre de várias investidas racistas, na tentativa de inferiorizar a raça negra.” por Bruno Candido em Cabelo de bombril em homenagem aos negros

Cabelo natural não é feio, não é vergonhoso, não é bombril e não precisa ser alisado. Não deve ser ridicularizado. O crespo não precisa ser domado, não precisa ser adequado. O humor, a moda e a publicidade não precisam se associar ao racismo – covarde – e velado do blackface, considerado inofensivo e, muitas vezes, imperceptível para quem não convive diariamente com a questão da aceitação e do preconceito.

Eu tenho cabelo crespo. Demorou muito até que eu me sentisse bonita com toda essa textura e esse volume. Perdi as contas das vezes que cabeleireiros me sugeriram uma chapinha no final do corte ou até mesmo um procedimento químico. Cresci sendo questionada do porquê eu não alisava meu cabelo. Já fui indagada pela operadora de caixa do restaurante da empresa onde trabalho se eu gostava do meu cabelo assim, ao que respondi positivamente e tive como tréplica “Mas assiiiiimmmm??? Armado desse jeito?”. Sim, eu gosto e promovo a aceitação.

Somos diferentes. Simples assim. Não desvalorizo quem opta por procedimentos químicos para ter os fios lisos. Não quero ser ridicularizada na minha escolha, também. Não preciso alisar meu cabelo para ser bonita ou aceita. Cabelo crespo não é feio, não é ruim, não é inadequado para o ambiente profissional. Seu preconceito é.

Se você também é a favor da diversidade capilar envie sua foto para: fuas.tumblr.com.

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1 Comentários

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  1. Hj em dia o preconceito foi alem ! Eu tenho cabelo cacheado e me orgulho disso… Ja ouvi muita merda por ai’
    -cabelo de lavar louça e etc….

    Panda Lana / Responder

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