Todo vagão tem um pouco de navio negreiro - MISTURA URBANA

Todo vagão tem um pouco de navio negreiro


Pane no metrô de São Paulo é um dos eventos que não carece confirmação, acontece todos os dias a qualquer horário. Uso a Linha 3 – Vermelha do metrô para ir e voltar do trabalho, de segunda à sexta, fora do horário de pico, e ainda assim são raras as vezes que não tenho a viagem prejudicada por alguma pane, ou parada da circulação para retirada de objetos na via, ou para aguardar a movimentação do trem à frente. Os dois últimos motivos citados são os mais comuns, segundo as informações dos funcionários do metrô nos falantes dos trens e estações, no entanto, tenho minhas dúvidas quanto à veracidade dessas informações.

Hoje a Linha 3, que liga o leste da cidade (Corinthians – Itaquera) à zona oeste (Palmeiras – Barra Funda) apresentou mais uma pane, na estação Brás, onde acontece a intersecção do metrô com os trens da CPTM, que ligam o centro de São Paulo aos bairros mais afastados e às cidades da região metropolitana, por esse motivo a estação sempre apresenta um grande fluxo de usuários, além de ser uma das principais zonas comerciais do país. A pane aconteceu pouco depois das 7h, horário de fluxo extremamente intenso. Soube da pane quando ainda estava em casa, por telefone: “Não pegue o metrô hoje, está um caos!“.

Fui trabalhar de carona, o que resolveu em parte o problema, porque sair da zona leste é sempre um trauma (quem conhece o Aricanduva e a Radial Leste sabe do que estou falando). No caminho fui acompanhando a cobertura da situação pela Rádio CBN, que trazia uma entrevista da repórter Petria Chaves com o diretor de operações do Metrô de São Paulo, Mário Fioratti. Para a minha surpresa, o diretor de operações do metrô parecia NUNCA ter utilizado o transporte e responsabilizava integralmente os usuários pela demora na normalização do serviço do metrô após o incidente da manhã. Segundo ele, os vagões ficaram parados por 12 minutos para o reboque da composição que apresentou problema, neste ínterim, usuários acionaram o sistema de abertura das portas e saltaram dos vagões, trafegando pelos trilhos em direção às estações mais próximas, sendo necessária a desernegização dos trilhos, o que realmente CAUSOU o grande tempo de paralização do metrô. Ainda ressaltou que a ação de abertura das portas foi desnecessária pois o trem violado em questão é do modelo novo e possuía ar condicionado.

Além de injusta e covarde, considero as afirmações de Mário Fioratti insensíveis ao drama de quem utiliza o transporte público em São Paulo. Como bem lembrou um ouvinte logo em seguida à entrevista do representante do Metrô, qualquer pessoa que utiliza o metrô em São Paulo sabe que os trens novos tem o sistema de ar condicionado desligado ou reduzido durante os tempos de parada por problemas operacionais, seja para retirada de objeto caído na via ou para aguardar a movimentação do trem à frente, seja na superfície ou nos túneis. Qualquer pessoa que utiliza o metrô em São Paulo sabe que às 7h da manhã os trens sempre estão entupidos de gente, navios negreiros dos novos tempos, como já foi grafitado por Bruno Perê em denúncia (imagem que ilustra esse post) e foi censurado coberto pelo próprio metrô.

Como bem disse a repórter, por mais que não seja recomendável a abertura das portas dos vagões nesses casos, é perfeitamente compreensível que os usuários abram as portas porque muitas pessoas passam mal ou entram em pânico nessas situações, sobretudo quando não há informação clara, que garanta a calma e a ordem por parte dos funcionários do metrô, contrariando outra afirmação de Fioratti, que alegou a postura objetiva do metrô em informar quaisquer problemas aos usuários. Tremenda inverdade! Sempre que acontece algum problema durante as viagens são dadas informações superficiais e genéricas como os dois motivos citados no início do post. Além dos motivos já citados, quem pega metrô nesse horário não está passeando ou fazendo city tour, é trabalhador, que bate cartão de ponto e tem descontado no salário os atrasos, quando não perde o dia de trabalho, o que é justificativa para atitudes desesperadas, sim!

O sistema de transporte na cidade está deficiente, o valor da passagem é muito caro pela qualidade do serviço prestado, quem não mora no centro demora muito mais do que o razoável para se locomover pela cidade, a malha é insuficiente para atender toda a população. O metrô, que deveria ser uma solução inteligente, rápida e econômica para a cidade, mais que dobrou o número de falhas nos últimos três anos! O transporte público não é uma opção atraente para quem ainda utiliza o automóvel como meio de transporte. Alguma coisa precisa ser feita e responsabilizar o usuário pelos atrasos causados não é uma dessas coisas.

*Foto que ilustra o post veio daqui.

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