Existe SP para todos? - MISTURA URBANA

Existe SP para todos?

Cidadãos paulistanos receberam em 29 de setembro do ano passado uma nova Praça Roosevelt, após dois anos de uma reforma que custou a demolição do famoso castelinho onde funcionou por cerca de 40 anos a boate Kilt e R$ 55 milhões aos cofres públicos. Ampliada, os 25 mil metros quadrados da nova praça ganharam árvores, quiosques, banheiro público e até 380 metros quadrados para os cachorros, o “cachorródromo”, com gramado e banco para os donos. Mas nenhuma pista de skate foi construída, embora a prática esportiva estivesse sempre presente na praça mesmo nos tempos em que a manutenção era negligenciada pela prefeitura e mal iluminado, o local era tomado pelos indesejados usuários de drogas.

Localizada no centro da cidade, a reforma da praça teve como principal objetivo a revitalização do centro, valorizando os teatros e estabelecimentos comerciais e culturais da região, bem como os imóveis. Logo em outubro a praça já foi palco de manifestações importantes para a cidade, como a passeata “Amor, sim, Russomano, não” que reuniu pessoas contrárias ao então candidato a prefeito da cidade, Celso Russomano (PRB) (fotos aqui), e o evento gratuito e apartidário “Existe Amor em SP”, contra o governo do ex-prefeito Gilberto Kassab (DEM) e pelo despertar do debate político, reunindo mais de 2 mil pessoas vestidas de rosa e os artistas Criolo, Emicida, Gaby Amarantos, Karina Buhr e Thiago Pethit, entre outras atrações.

Na última sexta-feira foi divulgado um vídeo denunciando cenas de violência por parte dos guardas civis metropolitanos que faziam a segurança da praça contra skatistas, proibidos de utilizarem o novo espaço por causarem danos ao patrimônio público e transtorno aos moradores da região devido ao barulho das manobras, segundo reclamações.

Após as denúncias, os GCMs envolvidos nas agressões foram afastados e a Subprefeitura da Sé realizou uma reunião na própria Praça Roosevelt, envolvendo skatistas, a GCM, moradores e comerciantes da região. De forma pacífica foi agendada uma nova reunião com o objetivo de avançar nos entendimentos para uma melhor utilização da praça. Um dos acordos realizados foi o de implantar uma área apropriada para skatistas. Os skatistas prometem não esquecer o caso e organizam uma manifestação pacífica contra a violência policial e pela democratização do espaço no final do mês em evento no Facebook.

Diante desses fatos recentes sobrou assunto pra pensar e cheguei a algumas conclusões um tanto quanto óbvias:

– democracia não é apenas votar no dia da eleição, é fazer parte dos problemas e soluções da cidade, que não é feita pelos governantes, é feita para, de e por cidadãos;

– espaço público é um espaço para todos e deve ser encarado como tal, não favorecendo especulação imobiliária ou interesses de uma parcela da população em detrimento de outra;

– diálogo pacífico e inteligente é a ferramenta ideal para alcançar uma sociedade justa. Proibição e repressão, pelo contrário, só se mostraram ineficazes;

– policial e/ou guarda civil NÃO está acima da lei e NÃO pode agredir moral ou fisicamente NENHUM cidadão. Sob o pretexto da autoridade, funcionários públicos (sim, é isso o que são!) responsáveis pela segurança da população abusam do poder e, ao contrário do que pensam ou parecem pensar, não estão livres da lei, que é para todos;

– quando se tem plena noção dos seus direitos, como demonstrou o cinegrafista agredido, não se tem medo de ações arbitrárias e truculentas. Todo cidadão PODE e DEVE manifestar repúdio e denunciar a violência policial. Com as redes sociais e a velocidade da informação é impossível que ações como essa sejam ignoradas;

– ao contrário do que manifestou preconceituosamente o GCM agressor, que já respondia a processo na Corregedoria por agredir vendedores ambulantes, skatista não é vagabundo, é um cidadão como qualquer outro em seu momento de lazer, com os mesmos direitos e responsabilidades. Vale lembrar que anos atrás sambistas, grafiteiros, artistas de teatro e tantos outros grupos urbanos também eram considerados vagabundos;

– o que SP (eu, você, todo mundo) precisa de verdade é de respeito. Não adianta cobrar dos governantes, das autoridades, do próximo se você não tem.

*No Rio de Janeiro, a Prefeitura em parceria inédita com a Nike entregou aos skatistas da cidade uma pista de skate no começo de 2012. Anteriormente os skatistas utilizavam uma quadra de vôlei com obstáculos improvisados para realizar as manobras. A obra faz parte da revitalização do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas.

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1 Comentários

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  1. […] iniciativa está de parabéns! Os skatistas estão de parabéns! Como já escrevi no post anterior sobre o assunto, a Praça Roosevelt se tornou um marco da revitalização da juventude paulistana. Existe voz em […]

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