Nos campos do Piratininga - MISTURA URBANA

Nos campos do Piratininga

texto por Bruno Faria

Não dá pra falar de São Paulo sem falar de futebol. A história da cidade e do esporte, a partir do final do século XIX e começo do século XX, tornam-se uma só. Dos tempos de Charles Miller até a Copa do Mundo de 2014, que será jogada também por aqui, o futebol faz parte do nosso dia-a-dia.

E o futebol de várzea, em especial, faz parte desta história. A várzea é o berço do futebol paulista. Muitos times tiveram sua origem no futebol varzeano, como o Corinthians. No terrão da várzea craques consagrados deram seus primeiros chutes na bola. Pelé, Garrincha, Dener, Junior (este no futebol de onze jogado nas praias do Rio de Janeiro), mostrando que a várzea não é importante só para São Paulo. É importante para todo o futebol brasileiro.

Vocês sabem que um dos maiores campeonatos de várzea do mundo é jogado em Manaus? O Peladão reúne mais de 700 times que jogam durante todo o ano.

Voltando para São Paulo. O Anhanguera, clube da região do Campo Grande, zona sul de São Paulo, na foto aí de cima, está no meio de um imenso canteiro de obras. Nos últimos dez anos prédios foram construídos em ritmo cada vez mais acelerado por ali. Tempos atrás conversei com o presidente do Anhanguera. Ele me disse que é muito comum ser procurado por imobiliárias para venda do campo, mas como o Anhanguera está em um terreno da Prefeitura o Anhanguera não tem poder nenhum sobre isso. Não é algo isolado. Todos sabem da especulação imobiliária absurda de São Paulo. As favelas queimadas em terrenos valiosos para construção não são uma coincidência, certo?

Eu me lembro de pelo menos três campos nos quais cheguei a jogar e hoje não existem mais.
O Campo do Careca, entre a Avenida Berrini e a Marginal Pinheiros, ao lado da rua onde morei por muitos anos. Hoje é um buraco para construção de condomínio. O campo da Monark, ao lado do Shopping Morumbi, hoje é um destes grandes empreendimentos imobiliários. Os campos do complexo do Clube do Mé, ao lado da ponte Cidade Jardim, viraram um parque.

O futebol de várzea, tirando algumas exceções, vem cada vez mais sendo empurrado para longe do centro da cidade. O genérico deixado é o futebol society. Pago, com hora marcada, sem conter a integração da várzea. O campo de futebol sempre foi um local de reunião, de encontro da comunidade. Gente do bairro se encontrava após a semana inteira trabalhando para jogar, conversar, fazer música, um churrasco. A molecada tinha nos campos um lugar de lazer seguro. Quem já foi ou conhece, sabe do que estou falando.

Em uma cidade cada vez mais impessoal e hostil com seus habitantes, o cerco à várzea é outra das tantas coisas ruins que vem acontecendo em São Paulo. Felizmente muitos campos ainda resistem, como o Barcelona, ao lado da Guarapiranga, nesta foto. A Copa Kaiser, o maior campeonato da várzea paulistana, consegue reunir mais de cinco mil pessoas para assistir a final. Eu tenho esperança que um aspecto tão característico do esporte amador de São Paulo não entre em extinção no futuro. E ainda possamos registrar belas imagens como a de baixo, no campo do Aliança da Casa Verde, zona norte de São Paulo.

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