Entrevista com Herbert Baglione - MISTURA URBANA

Entrevista com Herbert Baglione

foto by upperplayground.

Semana passada subi um post preview da exposição que o artista plástico Herbert Baglione abriu em Bogotá, Colômbia. (leia AQUI)
Hoje, recebi de Luca Brasi, uma entrevista com o artista e vale demais o post e a leitura.
Lembrando que se você mora ou vai passar por Bogotá, coloque a expo no roteiro.

Por que você usou sangue desta vez?

Basicamente meu trabalho tem uma forte ligação com a morte, e claro, o existencialismo.
Eu poderia fazer as mesmas pinturas em outra técnica, como acrílico ou óleo, mas estes materiais me distanciariam do ritual que eu busco, que é minha essência, assim também foi quando comecei a pintar em preto e branco.
O que eu quis com este trabalho é estar em contato mais profundo com coisas que vão se perdendo ao longo dos anos, por conta da velocidade da informação e do mercado. Nossos hábitos cotidianos estão mais frios e somos escravos do sensacionalismo e em partes este trabalho também questiona isso.

Fale mais o trabalho e o contato com o seu próprio sangue.

É um trabalho intimista, fiz pela necessidade de fazer e de provocar um novo caminho no meu processo criativo.
Existe uma diferença muito grande em sentir o cheiro da tinta óleo e sentir o cheiro do próprio sangue. A percepção com o próprio trabalho muda.
Isso infelizmente é algo que só eu pude ter contato enquanto pintava, e a experiência muda para o expectador que vê a tela ao vivo e muda mais ainda para as pessoas que as vê pela internet ou impressa em revistas.
Existe muita diferença em querer mostrar técnica e se desprender de tudo aquilo que você aprendeu e fez durante anos para experimentar um outro meio.
Acredito que, como artista, não devo me condicionar a um único caminho ou seguir um estilo, isso é pouco estimulante para mim.

Durante o processo de tirar o sangue, tem uma modelo que está ali com as pernas cruzadas sobre você. Para mim, sinceramente não faz muito sentido.

Estou falando nesta exposição de rituais, processos de transformação, desprendimento e fé. Elementos que fazem parte do meu obituário.
As religiões estão perdendo seu espaço dentro da sociedade contemporânea. Tecnologia, moda e arte são elementos chave para a nova fé. Estamos vivendo o culto ao universo criativo.
Se você notar, eu estou atado em todos os sentidos por 40 minutos. Em um braço estão tirando meu sangue, que foi minha matéria prima para criar, em outro estou com soro e atrás de mim a modelo me abraçando com as pernas. Ela simboliza a imposição como tendência de moda e faz tirar o foco daquilo que realmente importa.
A arte questiona e a moda de uma maneira geral impõe, e tudo isso está conectado.

foto by upperplayground.

E as pichações ao fundo?

Assim como o sangue, busquei minha raíz na rua. E a pichação foi o que me chamou a atenção antes de começar a fazer graffiti.

Existem mais elementos neste trabalho ? Quais ?

Sim.
Debaixo da garrafa com sangue está uma camisa com o logotipo da escola que estudei (Escola Técnica Walter Belian), onde tive meu primeiro contato com o universo da contra-cultura e que eu trago comigo até hoje.
E, em um dos pés da maca está apoiado pelo livro de Albert Camus, O Estrangeiro, que foi um dos livros que mais me chamou a atenção em um momento da minha vida que me vi sem rumo. Este momento sem rumo, foi a minha base para o experimentalismo e o desprendimento e isso é o que estou buscando retomar.

Qual é sua ligação com o universo Black e DeathMetal ?

Gosto de poucas bandas do gênero, e não gosto de “Obituary”. O uso do nome coincidiu com todo o processo de busca.

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Abaixo algumas fotos que selecionei do site da Uupper Playground, mas pra ver o pacote completo clica AQUI.

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Lila Varo

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Lila Varo, é produtora de conteúdo, editora do Mistura Urbana e mais um continente a sua escolha. lila[@]misturaurbana.com

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