Sobre paixões e músicas - MISTURA URBANA

Sobre paixões e músicas

texto enviado por Vitor Gonçalves, leitor do Mistura Urbana

Alzheimer induzido pós-break-up. Se existe algum esforço verdadeiramente universal é o de tentar compulsivamente esquecer um ex-qualquer-coisa, e se existe uma parte inerente a qualquer relação com mínimo grau de importância é esta simbiose cultural que ter uma pessoa na sua vida gera. Emprestam-se camisas e escova de dente; dividem-se músicas e poemas escondidos.

No dia 26 de Junho os caras do Of Montreal pousam em São Paulo pra um showzinho delícia no Cine Joia, e pra muitos hipsters de plantão tenho certeza que isso é motivo de muito amor. Pra mim, é chave mestre pra todas as portas da minha memória que mantém lembranças agridoces longe do consciente; um turbilhão de nostalgias, arrependimentos e dores de cabeça receberam permissão pra sambar por aqui no momento em que resolvi dar attending neste evento. Ai, como é lindo quando seus gostos são os mesmos que o do outro! Ai, como é belo quando não são e isto só serve pra ampliar o conhecimento cultural dos dois! Mas eu queria instituir aqui uma campanha contra o compartilhamento de boas referências musicais com o objeto de desejo, em prol da não destruição dos grandes álbuns, da preservação de nossas bibliotecas intactas e principalmente – já que sem estas as noites de sexta-feira passadas sozinhos perdem seu brilho – pela conservação das nossas canções de chorar como tais, e não como canções de chorar por ele(a). Faz-se proibido que DVDs do Mika e da Amy (martirizada) Winehouse participem de rendez-vous íntimos acompanhados de vinho e abraço apertado, pra citar apenas dois e assim não denunciar a quem possa ler esse recalque textual o fundamento de minha reclamação.

Agora, pra você que já cometeu o erro e está naquela fase interna de divisão dos bens culturais, na qual a partir de testes controlados vamos descobrindo que livros ainda lemos sem despencar e que filmes assistimos sem que o protagonista seja acusado dos mesmos defeitos que nós fomos, sugiro dois álbuns que, meu amor, são de tirar o fôlego. O primeiro, intitulado exatamente Fôlego, é do Filipe Catto e por lamúrias e confissões no mais belo dos contratenores te faz querer cantar, gritar e sambar; arranca sorrisos de amor e de ódio em igual medida. Vale escutar as faixas Adoração, Redoma, Saga e 2 Perdidos – esta, do sempre interessante Arnaldo Antunes. O outro, Canções de Apartamento, é o primeiro álbum do Cícero, oficialmente meu novo letrista preferido. Poesia musicada é a melhor definição pro trabalho que o cara faz. Ouça Açúcar e Adoçante? nos dias em que estiver ácido e irônico, e Laiá laiá quando quiser se libertar.

Paixão que passa deixa gosto seco na boca, fica cutucando os miolos e enquanto não vem cutuque de gente nova no Facebook, o que nos resta é botar um fone no ouvido, sentar com livro e destilado nas mãos e aproveitar essa bad pra se afogar em cultura. Vê se da próxima vez aprende a esconder seus tesouros, boneca, que pra dividir referências existe blog!

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