Review Sonar Barcelona - MISTURA URBANA

Review Sonar Barcelona

* texto enviado pelo jornalista brasileiro, Guilherme Frota, que atualmente vive em Barcelona, na Espanha.

Antes de mais nada, caro leitor, quero que você saiba que não sou nenhum crítico de música, mas simplesmente um mero espectador da 19ª edição do Sonar 2012, Festival Internacional de Música Avançada e New Media Art.

Como morador da cidade de Barcelona, jornalista, produtor audiovisual, chato, crítico e um tanto observador, meu objetivo com essa matéria é simplesmente publicar as minhas percepções, já que minha amiga blogueira Natt Naville, me convenceu a escrever um “review” do evento para o site Mistura Urbana.

Segundo dados publicados no jornal El País, participaram durante os três dias do evento,  caracterizado pela mistura da vanguarda e a experimentação referente à música eletrônica e suas variações, 98.000 pessoas, que somaram um recorde de assistência desde a primeira edição do festival em 1993. Estima-se que dessa galera, 64.500 escolheram badalar durante a noite nos enormes galpões industriais da Fira Gran Via, adaptados com três palcos principais, telões de LED enormes e muito jogo de luz.

Já os outros 33.500 preferiram curtir o dia nas instalações do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB) e no MACBA (Museu de Arte Contemporânea de Barcelona), onde foram montados quatro palcos entre os quais, o Sonar Village, a céu aberto.

É inevitável falar do Sonar, sem antes citar tudo o que o pacote inclui. 60% do público que freqüenta o festival é de guiris – palavra utilizada pelos espanhóis para  se referirem aos estrangeiros – procedentes de 80 países, que ocupam 90% dos hotéis da cidade. A estes, somamos aqueles amigos/as distantes e que coincidentemente a algumas semanas precedentes ao festival, te escrevem por facebook declarando saudades e perguntando como anda a vida, quando você menos percebe nos dias da festa, acabam acordando no sofá da sua casa com os respectivos namorados/as. Aos meus amigos, somamos os amigos dos amigos e o resultado dá no que dá.

Sim, é muita gente que vem para a cidade nestas datas. É todo um comércio, e é quase impossível encontrar um taxi livre. Os restaurantes ficam sempre lotados, as lojas aumentam as vendas e caminhar  pelas Ramblas vira algo praticamente impossível, na verdade isso acontece em qualquer região do centro. É como se não houvesse crise (ou para esquecer dela), as pessoas precisassem consumir mais, entreter-se e dançar em comunidade até o entardecer, ou amanhecer, dependendo do seu abono.

Barcelona fica mais interessante e atrativa nessa época, a cidade ferve. Os ingleses são o principal público consumidor do festival, seguidos pelos franceses, alemães e italianos. Segundo as estatísticas deste ano, também houve um aumento significativo de visitantes procedentes da América do Sul, do Norte e Ásia. Os diretores do festival atribuem o sucesso desta edição às versões internacionais celebradas em Tokyo, Cidade do Cabo e São Paulo.

Aliás, parece que o brasileiro está podendo mesmo. Impressionante a quantidade de turistas conterrâneos que andam por aqui. Com as mãos cheias de sacolas, o que não é de se estranhar, pois os preços de roupas e eletrônicos aqui são muito mais justos e acessíveis que no Brasil, aliás, muitos vem só para assistir ao evento e de quebra acabam se jogando nas compras.

Mas, fazendo jus ao festival catalão: um de cada quatro visitantes é procedente da área metropolitana de Barcelona. Sem contar o público que não está incluído nas estatísticas  e freqüenta as festas paralelas ao evento: Pré-Sonar, Off-Sonar, Anti-Sonar, After-Sonar, Pós-Sonar… Alguns acabam recorrendo às festas alternativas por questões financeiras, outros as dão preferência para fugir do mainstream. E também tem aqueles que emendam umas nas outras.

É divertido ver o clima que se cria, como se existisse a “seita dos festivaleiros”. As pessoas parecem sair das revistas de moda, os óculos escuros são tendência e o clima é anos 80. Muito shorts rasgado, poupa do bumbum de fora e camisas floridas.

Por: i Blog - Ramiro E. (elmundo.es)

Mesmo já tendo participado do festival em edições anteriores, ainda não tinha ido durante o dia. Então, este ano resolvi experimentar um pouco de tudo. Minha festa começou na quinta-feira 14 de junho no mercado La Boqueria, um ponto clássico da cidade onde para a surpresa dos turistas, Richie Hawtin tocou um set inteirinho gratuitamente, fora do circuito oficial do Sonar. Talvez para atrair o público à sua apresentação oficial na sexta-feira a noite ou quem sabe para dar um pouco de gosto aos “pobres”. Foi ótimo! Estava cheio e ali deu para sentir o ar diferente que a cidade respirava. Afortunados aqueles que estavam nas sacadas dos apartamentos vizinhos ao mercado, mas quem não tinha esse privilégio, deu um jeito, escalando containers de lixo ou subindo no teto do carro, para conseguir enxergar o DJ. Para quem já visitou a cidade, sabe que os paquistaneses, vendedores de cerveja, são um clássico do bairro do Raval, onde fica o mercado. Por apenas 1,50 euro, podia-se tomar a cerveja catalana Estrella Damm, enquanto o Ritchie “bombava” a caixa de som.

Por: Guilherme Frota

Dali, resolvi seguir as pessoas, imaginando que elas estariam mais bem informadas que eu, em relação às festas alternativas. E não é que eu fui parar no Hotel Barceló, na rambla do Raval em uma festa também gratuita. O saguão do hotel estava cheio de gente  dançando ao som dos dj’s e o “plus”, era poder subir no terraço do último andar e curtir o visual da cidade tomando um Gin Tonic.

No dia seguinte, acabei chegando só as 17:00 no Sonar dia, mas ainda assim deu para aproveitar bastante. Além da ambientação no pátio do CCCB com chão verde imitando uma grama sintética e corações de papel espalhados pelo chão, o que me chamou a atenção foi que as atrações não estavam somente centradas nos shows ou DJ sets, pois o Sonar dia, também oferecia espaços dedicados à instalações e exibição de novas tecnologias relacionadas à música e arte digital.

Daquilo que vi, o que marcou foi Pollywogs, do artista alemão Roland Olbeter, afincado em Barcelona e referência no âmbito de engenharia robótica. Uma instalação sonora composta por cinco instrumentos robóticos que, basicamente, tocam música clássica.

Também se destacaram o gravador de discos de Vinyl,  e uma aplicação desenvolvida por ingleses que possibilita o envio de dados através de ondas de rádio.  Se você se interessa por novas tecnologias, vale a pena conferir!!

Por: Guilherme Frota

No quesito música, a banda Canadense Austra, mandou um som bem bacana, até então desconhecido para mim. Fiquei intrigado com o canto coral, o figurino e a dança tribal das  meninas. Parecia que elas estavam evocando algum espírito enquanto se apresentavam, reconheço que despertaram a minha curiosidade.

Por: Guilherme Frota

Jacques Greene, dj, também canadense, foi destaque neste ano, misturou house eletrônico com um pouco de R&B e agradou os ouvidos dos espectadores. Dago Donato, proprietário do Neu club em São Paulo, e um dos fundadores do coletivo Avalanche Tropical, é famoso por misturar estilos  como cumbia digital, reggaeton, dancehall e moonbathon com elementos do pop, rock e hip hop. O dj de world music, abriu o set tocando funk carioca e botou o pessoal para rebolar. Ainda no set list: Paralamas do Sucesso e Tropicália. Foi nostálgico!

Nos outros palcos, também rolou música boa, mas tinha que estar com muita vontade de escutar o som, pois no calor de 30 graus do recém chegado verão na cidade, ficava difícil dançar na barraca gigante do Sonar Dôme ou no porão do CCCB, onde ficava o palco Sonar Hall. O acesso ao Museu de Arte Contemporânea também era livre aos freqüentadores do evento, não teve como enjoar diante tantas opções.

Por: Guilherme Frota

Na sexta-feira a noite, se apresentaram nomes como Amon Tobin (UK) – que mistura música e arte visual, Nina Kraviz (RU) – revelação Russa, jornalista, promotora e fã do deep house, Fatboy Slim (UK) – dispensa apresentações, e Lana del Rey (USA) – talentosa, carismática e recém ganhadora de um Brit Award, como melhor nova artista internacional, em sua primeira apresentação na Europa. Parece que causaram alvoroço na primeira noite do festival, mas infelizmente não pude testemunhar.

Já no sábado, cheguei cedo, pois o show do New Order (UK) estava marcado para as 23:00h. Não deu outra, a clássica banda inglesa começou o show pontualmente e animou o público ao tocar hits como Blue Monday e Bizarre Love Triangle. O concerto durou exatamente uma hora.

Por: Guilherme Frota

O clima do festival a noite é bem diferente, é como se fosse uma discoteca gigante. É tanta atração de qualidade que acontece ao mesmo tempo que fica difícil escolher. Aliás, parece que os organizadores fazem de propósito, pois sempre as atrações principais se apresentam na mesma hora em palcos diferentes, o que acaba dividindo o público. Os galpões são enormes e os palcos exteriores bem arejados, não faltou espaço para dançar, mesmo se você estiver na primeira linha do palco, que foi onde fiquei para ver o show do Hot Chip (UK), que mais uma vez me encheu de orgulho.

O baixinho vocalista Alexis Taylor que por si mesmo já é um personagem bastante caricato, entrou animado no palco vestindo um macacão laranja. Seu companheiro Joe Godard de camiseta preta e terno branco, também com muito estilo, não hesitava em pedir aplausos ao público durante o show. Todos os integrantes da banda electropop, dance-punk, alternativa, indieletronica – que já tinha se apresentado no festival há dois anos atrás – estavam animados  e tocaram singles dançantes como Ready for the Floor, Over and Over e One Life Stand. A baterista da banda também se destacou por sua performance.

Por: Guilherme Frota

Ir em grupos grandes a eventos como este, não é algo que eu recomende, é sempre difícil administrar a vontade de todos. Como se não bastasse ter que dar conta da sua própria ansiedade, pois resulta em fazer escolhas difíceis, com tanta opção no line up, ou ainda ter que dar conta daquele amigo “freak”, que quer ficar seguindo o line-up, andando de palco em palco seguindo os artistas favoritos. Ou daquele outro cervejeiro que toma uma seguida da outra e depois fica querendo ir ao banheiro de cinco em cinco minutos, e acaba sobrando pra você esperar o tempo da fila quilométrica do banheiro. O bom mesmo é combinar pontos de encontro periódicos.

Uma das coisas que sempre me chama a atenção, é o carrinho de bate-bate, com tanta gente doida concentrada, eu não sei como não acontece nenhum acidente sério. Mas devo confessar que é realmente muito divertido brincar na “pistinha”, ainda mais quando tem um palco justo em frente chamado SONAR CAR, que concentra dj’s também de qualidade. Ele fica no corredor que conecta os pavilhões e é uma ótima opção para dar uma “dançadinha”.

Por: Guilherme Frota

Outros grandes artistas se apresentaram na mesma noite, com destaque para The Roots (US) – reconhecida como uma das melhores bandas de Hip Hop do mundo, dando uma nova cara ao estilo misturando neo soul, jazz, rap e rock. Deadmau5 (CA) que chamou a atenção pela máscara de rato que usava, enquanto tocava seu reconhecido electro-house-tecno progressivo. DJ2D2 (ES) Laurent Garnier (FRA), não passaram desapercebidos e Luciano (CH) – com seu minimal groove, fechou o palco SonarClub com estilo.

Participar de um evento deste porte é realmente uma maratona, ou tá achando que é fácil agüentar tantas horas de pé dançando? São 257 artistas que se apresentam durante os 3 dias de evento, longas distâncias percorridas e muitas horas desreguladas de sono. Como marco do início do verão, o evento acaba aglomerando pessoas de ressaca dormindo nas praias urbanas e no último dia do festival, na última hora, ao som do último dj, o que sobra mesmo são só os vultos. Inclusive eu desejaria que nunca amanhecesse, porque as caras que começam a aparecer quando o sol vai surgindo são realmente de dar medo.

Durante os dias do festival, através da música que tem efeitos quase terapêuticos, parece que a sociedade tenta esquecer de uma crise trocando olhares que buscam aventuras, encontros ou simplesmente cumplicidade para poder seguir dançando.

 

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