O Senhor Tempo - MISTURA URBANA

O Senhor Tempo

Naquela manhã ela encontrava-se inexorável. Seu olhar emitia terríveis fulgores de cólera, entre soluços e lágrimas, enquanto gritava da janela do quarto, como se sua ira virulenta pudesse contaminar os transeuntes que passavam pela rua. E assim ela gritava:

_ Ele não merece o ar que respira! Maldito seja! – e um vago silêncio, que não omitia o consolo de uma pessoa amiga. Sua voz agora era mais amena e talvez, reflexiva – Não me interessa nada disso! Anos e anos de tanto amor, horas de dedicação, dias maravilhosos que o tempo jamais ousou ludibriar… Dei-lhe a volúpia da carne, entreguei-lhe toda a lisura de minha alma, fí-lo comprazer de minhas dedicações e consolos nas piores horas, o concedi o poder de tornar o tempo como “O Rei de nossa eterna felicidade” e hoje tudo se equivale a um amor execrável, restos de uma paixão que se tornou pequena demais diante da malevolência do “Senhor Tempo”, que passou por mim levando toda a glória da juventude, toda a beleza com a sordidez de quem trás a longa primavera e nos cobra com um lúgubre inverno… Ele se foi e assim fico eu, como vês. – e olhava pela janela como se buscasse refúgio na vida afora de sua agonia.

Eu presenciava a tudo sentada no banco da praça, não como alcoviteira, e sim com uma complacência reflexiva, há poucos metros de sua janela. Seus olhos percorreram vagamente os meus quando ela voltou-se para sua amiga com cálida expressão:

_ E jamais vou conceder-lhe a anistia por ter subestimado o tempo à sua vontade e desejo. Pois ele é muito mais sórdido que a ambiguidade insólita do tempo, por crer que poderás domar o tempo a seu favor! – e como se tivesse obtido o olhar de beneplácito da amiga, deixou aquele quarto em direção aos cômodos interiores da casa.

E eu continuava ali, perdida em reflexões complexas a respeito do “Senhor Tempo”, o temido “Crono” da mitologia grega. O  que ousou dilacerar Urano, seu próprio pai. Esse mesmo, porém, que fez surgir do sangue de seu pai com o mar uma linda deusa, “Afrodite” que personifica a “atração”. O mesmo Crono que destruía, devorava seus próprios filhos, outrora os contemplava no fundo de suas entranhas, construindo-lhes alicerce no mundo.

Esse mesmo tempo era Senhor por ser dono de tudo, ter controle sobre todos. Castiga com um tapa e com uma luva de pelica nos enxuga as lágrimas.   Saí daquele banco, daquela praça e daquele episódio com a fugaz impressão de que cada dia era castigado com a morte por haver assassinado o dia anterior. E cada noite recebia o castigo da alva porque ousara assassinar a tarde. E assim, só o tempo ficava sem castigo, apesar de ser o assassino de todas as coisas.


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