O banquete dos mendigos - MISTURA URBANA

O banquete dos mendigos

Ontem, logo após o jogo, fui não-surpreendida com a notícia que o governo da prefeitura de São Paulo, comandado pelo senhor prefeito Gilberto Kassab, em um prazo de 30 dias irá PROIBIR, isto mesmo, proibir a distribuição gratuita de sopa realizada voluntariamente. Motivo: suja a via pública. As entidades que continuarem realizando a prática serão “enquadradas administrativa e CRIMINALMENTE”, serão multadas e terão os veículos apreendidos. O motivo não é só a preocupação com a limpeza (Kassab deve ter TOC com isso), a prefeitura – diz – também estar preocupada com a intoxicação alimentar de, vejam bem, moradores de rua, pessoas que muitas vezes procuram comida no LIXO.

O objetivo da proibição é forçar o morador de rua a buscar acolhimento em um dos nove centros de convivência social da cidade. As entidades interessadas em distribuir os alimentos também devem procurar estes centros que atendem durante o dia. Durante à noite os moradores de rua devem procurar os albergues da prefeitura, que certamente não estarão localizados em regiões “nobres” como a Rua Cardeal Arcoverde, no bairro de Pinheiros.

Da mesma forma que entidades que realizam a distribuição do sopão, como a muito conhecida Anjos da Noite, sou contra a proibição e faço questão de apontar apenas alguns motivos para evitar que venham para a caixa de comentários os mesmos argumentos fracos favoráveis a proibição que já li por aí:

– Recentemente em outra tentativa do governo de limpar o centro, em conjunto com a prefeitura, espalhou o problema (leia-se pessoas) da Cracolândia para muitos pontos da cidade e somente três meses após a invasão da região pela polícia que foi inaugurado um complexo para os dependentes de crack, com um número de vagas muito inferior ao necessário.

– Estudos realizados em cidades de diversos países, inclusive Brasil, mostram que a maior parte da população em condição de rua sofre de distúrbios psiquiátricos ou dependência química, o que dificulta a conscientização pela busca de tratamento e mobilização até os centros oferecidos pela prefeitura.

– A preocupação do prefeito Kassab com a limpeza pública é tanta que em 2009 determinou corte de 20% nas verbas para a varrição de rua e retirada de entulho, garantiu que não haveria danos mas 1800 garis perderam seus empregos e a categoria entrou em greve. O lixo se acumulou pelas ruas e o prefeito teve que recuar.

– No final de 2011, Kassab reduziu a verba de combate a enchentes e utilizou apenas 8,3% do que estava destinado à prevenção de enchentes, o que também envolve limpeza pública. Todos nós sentimos a redução do investimento no cotidiano quando as chuvas do verão registravam pontos de alagamento na cidade. Mas como acontece todos os anos, nos deparamos com a “desculpa” de que choveu acima da média para justificativa dos alagamentos e enchentes.

– Tudo isso sem falar nos contratos e licitações sob investigação, inclusive uma concorrência para limpeza pública no valor de R$ 1,1 bilhão vencida pela Delta (sim, aquela empresa do caso Cachoeira) em outubro de 2011 suspeita de irregularidades.

Para não ficar só nos meus apontamentos, recomendo o texto de Bruno Ribeiro no Brasil Escrito: “São Paulo, a cidade proibida”. Em alguns momentos chega a ser cômica a análise da situação.

“É proibido fumar” – Roberto Carlos (1964)

Ainda assim a política higienista de Gilberto Kassab ganha defensores nas redes sociais, muitas vezes gente jovem que poderia se associar a ideias inovadoras e socialmente responsáveis mas prefere repetir as mesmas ideias antigas e repressoras de seus pais, avós e professores, fortalecendo suas iBolhas existenciais motorizadas com ar condicionado e design esportivo onde não existe fome, miséria e “papai resolve tudo”. Bastam acreditar que existem “Direitos humanos para humanos direitos” e assim ficam em paz com sua culpa cristã. Pensando nessa juventude paulista(na) criada em condomínio fechado com muito ovomaltino e leite com pêra na mamadeira, lembrei que muitos brasileiros já satirizaram este perfil do jovem paulistano há bastante tempo, embora pareça que ser jovem e se julgar supermoderno reforçando os valores machistas, repressores, higienistas, ainda não saiu de moda.

“Hey boy” – Mutantes (1970)

Pra cada discurso de ódio que eu leio no Twitter ou nas caixas de comentários dos portais de notícia, pra cada jovenzinho que nunca votou na vida vomitando discursos antiquados em favor da repressão e cerceamento das liberdades individuais, pra cada SUV comandado por sociopatas que atropelam manifestantes e consideram manifestações prejudiciais à cidade por atrapalhar o trânsito (!!!), para cada lei higienista lançada pelo governo do estado e cidade de São Paulo, eu lembro que em 1973, em plena ditadura militar, Jards Macalé realizou um evento para 4 mil pessoas no MAM do Rio de Janeiro, em companhia de Chico Buarque, Raul Seixas, Gal Costa, Jorge Mautner, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Luiz Melodia e outros artistas. Este evento não era apenas um show ou comício, muito mais que isso, era O Banquete dos Mendigos (que não por acaso tem um nome que vem bem a calhar para esta situação da sopa), um disco duplo que foi gravado ao vivo em comemoração aos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Este disco foi proibido porque não era só música, era educação e informação: entre uma canção e outra trechos desta Declaração eram lidos e nisto os militares não queriam que o povo pensasse. Postura não muito diferente da de quem defende esta forma de governo proibicionista. Viúvas da ditadura, que nunca foram atingidos pela repressão na segurança de suas bolhas de cinismo e indiferença.

“O banquete dos mendigos” – Jards Macalé

Encerro este post com as palavras que iniciam o vídeo acima, sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos: ” O futuro deste documento pertence a vocês, jovens.”

UPDATE: após a repercussão do assunto e criação de eventos no Facebook protestando contra a proibição e agendando um SOPAÇO NA CASA DO KASSAB, o prefeito desautorizou as informações anteriores dadas pelo secretário de Segurança Urbana e disse que o que existe é um ‘processo de convencimento para que as pessoas se alimentem em lugar certo’. Pelo visto só tem uma coisa na gestão Kassab que é mais práticada que proibir: recuar. Ou mentir.

*** A polêmica resultou num tumblr que enumera as proibições da gestão Kassab: kassabproibiu.tumblr.com

Comments

comments

0 Comentários

Junte-se a conversa →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *