Entrevista: Conheça a arte de Pedro Alma - MISTURA URBANA

Entrevista: Conheça a arte de Pedro Alma

Arte contemporânea com características urbanas, o grafiti consiste em pinturas e desenhos feitos normalmente em muros e paredes públicas. Trata-se de uma expressão artística, com a intenção de interferir no visual das cidades, transmitindo ideias e expressões.

Ele tem 21 anos, mora em São Paulo e seu primeiro contato com o grafiti foi em uma exposição da famosa dupla “Osgemeos” em Curitiba, e se apaixonou pela arte. Esta semana, o Mistura Urbana conversou com o artista e grafiteiro Pedro Alma que fala do início com a arte do grafiti e mostra um pouco do seu trabalho pra lá de criativo.

“Comecei a reparar em cada muro de São Paulo, nos desenhos e a pesquisar sobre diversos  artistas”, disse Alma.

Ele nos conta que teve o primeiro contato com o graffiti e o spray quando a faculdade abriu vagas para uma oficina.

“Pinto nas ruas faz 1 ano, mas desenhos desde os 3 anos de idade, sempre tive muito contato com arte. A escola em que estudei propunha isso. Eu tive muitas aulas de artes e trabalhos manuais, então usei materiais que variaram de tinta acrílica a carvão, modelei em argila, mexi com pedra, madeira.” conta.

Sobre influência para seguir os caminhos da arte, conta que sua mãe teve papel importante. Afinal, era ela que o incentivava a ir em exposições, explicava a história dos artistas, além das técnicas de pintura.

Sobre a técnica que usa: “Meu traço na verdade está sempre em desenvolvimento, acho que ainda estou me encontrando quanto a isso. Alguns pontos ainda se mantiveram desde meu primeiro grafiti, como por exemplo a utilização de triângulos, círculos, quadrados e do rosto como forma central. Algumas coisas mudaram bastante também, acabei por usar mais linhas, menos volumes, cores mais fortes e até a fazer fundo em alguns grafitis. Mas a ideia central continuou a mesma”, disse.

Quando está grafitando, o que quer expressar? Tem um objetivo?

Quando vou pintar não levo rascunho, gosto de observar o muro e de certa forma apenas revelar o que já estava nele. Esse acaba sendo o meu maior objetivo, trazer pra rua algo que já estava ali mas ninguém via ou reparava. Acabo sempre por expressar mais a tristeza, melancolia e solidão que são sentimentos muito presentes na cidade de São Paulo, que tem milhares de pessoas mas cada um vivendo no seu mundinho. E por mais muros coloridos que existam na cidade o nosso céu já se tornou cinza. E por não ser de leitura muito clara, as pinturas também tem como objetivo criar conflito interno do expectador, criar a duvida do “o que é isso!?”

Teve interesse em outro tipo de arte antes? Chegou a tentar outros tipos?

Atualmente pinto tábuas que encontro nas ruas. Recolho o material de vários tipos nas ruas, levo para minha casa e com o tempo vou pintando. Pinto telas com spray, caneta, e tinta de tecido. Ainda desenho, e gosto bastante de pintar com aquarela, é algo que ainda faço e assim como o graffiti, não pretendo parar.

Seu trabalho é focado em alguma questão? 

Criar a duvida no expectador, fazer ele refletir o que é aquilo que esta pintado no muro. O graffiti é uma forma de entretenimento para quem está na rua, é a paisagem do dia a dia de cada cidadão, então se através de uma pintura eu conseguir atingir alguém e fazer com que esse reflita, sinto que fiz minha parte.

A arte do grafite está sendo bem aceita na sociedade? Ou na cidade onde vive?

Ao meu ver sim, se comparado com o que escuto de artistas mais velhos e que pintam a mais tempo na rua. A pouco tempo tivemos a abertura do MAAU (Museu Aberto de Arte Urbana) nas pilastra do metrô na Av. Cruzeiro do Sul, o que foi um grande passo para arte urbana. E acho que essa aceitação é uma tendência, daqui pra frente. Mas essa questão vai ser sempre discutida, lembro que uma vez estava pintando na rua e um ex professor do cursinho me parou e disse “Muito legal o trabalho. Mas tem que tomar cuidado, porque nem sempre o que eu gosto é o que o meu vizinho gosta”. E o graffiti é bem isso, ele está na rua pra todo mundo ver, então algumas pessoas vão gostar, outras não e algumas vão ser indiferentes.

Esse já é um trabalho profissional?

Não, ainda é muito mais uma coisa que eu faço por conta própria. Mas sempre aparecem pessoas pedindo para pintar o quarto, o muro da casa, painéis. O último convite foi para pintar o forno de um bar pizzaria na Vila Madalena.

Como está o lado comercial?

A divulgação acaba sendo pelo meu perfil do facebook, e pela mídia espontânea de pessoas que gostam dos meus trabalhos e acabam compartilhando a imagem, mandando pra algum amigo etc. E a rua, que é a melhor maneira de divulgação de todas, onde milhares de pessoas passam, vêem e algumas eventualmente falam para os amigos ou comentam com alguém.

Existe um método para aprender a grafitar?

Eu fiz a oficina na faculdade, mas garanto que só aprendi a grafitar indo pra rua. A oficina te ajuda a entender mais o que é o grafiti, e da um leve empurrão explicando algumas informações como preparar a lata para pintar, os tipos de pinos que existem, as diferenças entre as marcas de spray, essas coisas. Grafiti é que nem desenho, quanto mais você faz mais você aprende e melhora e o melhor lugar para isso é a rua, porque é onde seu trabalho vai ficar exposto, onde você vai ouvir críticas e com isso ir melhorando. Pra aprender tem que praticar.

Como foi o processo de evolução para seu estilo, quais suas inspirações em seus trabalhos?

No inicio eu fazia rostos preenchidos, com mais volumes e sombra. Mas acho que por uma questão das latas de spray serem caras e isso diferenciar meu trabalho, acabei optando por fazer trabalhos mais abstratos, com mais linhas em ao invés de volumes e acabei gostando. Junto a isso comecei a ler sobre Kandinsky e Mondrian e gostei de várias coisas, entre elas,  as cores e formas e levei isso para o meu trabalho. Outra fonte de inspiração são os trabalhos do grafiteiro Saci Loves You. Acredito que a expressão no rosto dos paulistanos é uma grande fonte de inspiração, quando não estou olhando para os muros, estou olhando para o rosto das pessoas, procurando expressões e sentimentos. Mas a maior fonte de inspiração acaba sendo o próprio muro, é ele que dita como vou fazer, o que vou fazer, que cores usar em cada lugar.

Qual sua opinião sobre a arte de rua, instalações, intervenções urbanas?

A arte de rua é algo que nunca vai morrer, acho que ela sempre vai estar ai. Hoje em dia grandes museus como o MASP e MUBE estão abrindo suas portas para receber esse tipo de arte, então é inegável a importância e o peso da arte urbana. Um ponto bem interessante de ressaltar é que Osgemeos atingiram, com o grafiti, um patamar de reconhecimento artístico internacional que pouquíssimos artistas plásticos brasileiros conseguiram, então ao meu ver, a arte de rua não é mais tratada como uma simples forma de rebeldia e sim como um movimento artístico.

Você consegue viver da sua arte? Quais as dificuldades? Sente-se valorizado?

Ainda não consigo viver da minha arte, infelizmente rs. A maior dificuldade é que a arte de rua é para ficar na rua, foi feita para ficar na rua, então acaba sendo mais difícil as pessoas quererem uma tela para colocar em casa. A divulgação do material que não fica exposta na rua é um pouco complicada, porque mesmo com a maior aceitação da arte urbana, poucas galerias estão interessadas em colocar telas de grafiteiros para serem expostas. Mas para mim a maior recompensa é quando estou pintando e alguém passa e fala que viu algo do meu trabalho, isso é impagável, saber que você atingiu o que você queria, sabe? Ou então quando alguém passa e faz um elogio, ver alguém comentando com outra pessoa sobre o trabalho, ou quando o dono do muro fica feliz com o resultado, é nessas horas que eu me sinto valorizado, que sinto que as pessoas dão valor para o que eu faço.

Conheça o trabalho de Alma:

Facebook: http://www.facebook.com/pedro.adati
Twitter : https://twitter.com/#!/PedroAdati
Contato: [email protected]

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