A querela dos substantivos - MISTURA URBANA

A querela dos substantivos

Eis um diálogo ocorrido entre o substantivo feminino e o substantivo masculino, dentro de um velho dicionário esquecido no fundo de uma biblioteca de um senhor escritor:

 

– Escuta essa agora, irmã minha. Digo-lhe que vasculhei todo esse dicionário durante esses anos todos, e eis que sou muito mais importante que vossa senhoria. Nossos mais importantes irmãos são todos masculinos, tal como “Amor”, “Poder”, “Dinheiro”, “Sucesso”, “Juízo” e “Caráter”. Sem eles a vida não teria sentido algum.

 

– Ora, não seja tolo meu irmão. Nossa mãe, a Língua Portuguesa sempre nos ensinou que todos somos parte de um mundo de significação. Esse vasto mundo da comunicação verbal só teria sentido com a junção de palavras, sejam elas femininas ou masculinas. Veja você, o que seria sem “Paz” e “Felicidade”? E se você representa “Dinheiro”, estou eu na “Fortuna”. De que adianta o “Poder”, sem “Serenidade” e “Humildade”? Se estás no “Amor”, estou eu na “Paixão”. E “Caráter” sem “Personalidade”, de nada vale.

 

– Essa é boa! Fico eu com “Júbilo” e “Regozijo”. Sua “Alegria” e “Felicidade” são ultrapassadas e demasiado coloquiais. Sua “Fortuna” sem o meu “Discernimento” chega a ser insólita. E o “Caráter” é fruto do “Conhecimento”, do “Gênio” e do “Temperamento”.

 

– Ah, mas você esqueceu-se da Mãe do “Conhecimento”, a “Sabedoria” e a “Inteligência”…

 

– A “Inteligência” deriva de meu “Intelecto” que é tão másculo como eu…

 

– E “Honestidade”, “Integridade”, “Beleza”? Quer você mais fortes irmãos do que esses?

 

– Todos eles são as qualidades do que é “Honesto”, “Íntegro” e “Belo”, por mais que sejam adjetivos, são escritos aqui neste dicionário com total masculinidade.. Por quê então, se você se julga tão importante, não é descrito como “qualidade do que é bela, honesta e íntegra”? Vá lá, diga-me?

 

– Pois a “Descrição” é uma “Ação” de descrever e é a “Representação” pormenorizada por alguma “Palavra”, e cujas essas mesmas, são tão femininas como eu e dispensam qualquer descrição, pois dizem por si só.

 

E assim passou-se a discussão por horas, até que o senhor entrou na biblioteca, puxou o velho dicionário e passou a mão delicadamente por suas folhas a procura de alguma palavra. Apontou o polegar na letra “M” e foi seguindo até a palavra “Morte”. Fitou-a por alguns minutos, como se adivinhasse a porfia por trás de sua composição sintática. Foi quando, para seu próprio infortúnio, manifestou-se o substantivo masculino:

 

– Ora veja, cara irmã. Desta vez você ganhou a batalha, mas não a guerra. “Morte” é tão virulenta, injusta e cruel que eu não a invejo nem um pouco, que seja tão digna de ser feminina.

 

E antes que ele se entregasse a seu mordaz deleite, sua irmã calmamente diz:

 

– Assim como a “Vida” que eu represento, com tal “Orgulho” e “Respeito” eu represento a “Morte”, pois nada mais é do que a representação (masculina) de “Início” e de “Fim”.

 

 

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