Hoje eu fui à subprefeitura da Mooca, em São Paulo, resolver uns problemas da minha empresa. Por ser muito próximo à estação Bresser-Mooca do metrô, voltei andando até a estação para mais um dia de trabalho. Nunca tive problemas, conheço o bairro há mais de 10 anos e nunca fui vítima de nenhum crime, estava bem tranquila. Ao atravessar a Radial Leste, sob o Viaduto Bresser, um homem começou a “mexer” comigo, me chamar de gostosa e outras obcenidades piores que não tenho interesse em repetir mais uma vez. Fiquei com medo porque nem os moradores de rua que costumam ficar pela região estavam por lá. A rua estava vazia, apesar de já ser 10h. Não tem comércio, salvo alguns botecos bem pés-sujos, não tinha pra onde correr ou a quem pedir ajuda quando os ~elogios~ passaram a ser ameaça de estupro: entre outras coisas o homem dizia que ia me furar e fazer barbaridades comigo, eu acelerava o passo e a fonte das ameaças também. Desesperada, virei pra trás pra reconhecer o indivíduo, que não passava de um, aparentemente cinquentão, branco, apresentando sinais de embriaguez, com não mais de 1,60m. No ímpeto do ódio, também querendo chamar atenção de quem pudesse ouvir, soltei um sonoro “VAI SE FODER, SEU FILHO DA PUTA!”, e corri. Não tinha policial na rua, um ou outro transeunte ou taxista passava, saí correndo, me atirando na frente dos carros e entrei no pronto-socorro do hospital logo adiante.
Suando em bicas, chorando, tentando telefonar para o meu marido e ainda assim ABSOLUTAMENTE NINGUÉM na recepção do pronto-socorro se mostrou solidário. Olhando pela janela pude ver o agressor passando duas vezes em frente ao hospital. Sentei na recepção e esperei o tempo passar. Quando achava que estava tudo bem, saí rumo ao metrô, observando se não era seguida. Não era. Mas para minha surpresa, ao adentrar na estação, o agressor estava lá, na fila da bilheteria. Nunca tive tanto medo e TUDO passou pela minha cabeça: “esse cara vai me ver e vai me seguir”, “vai saber onde eu trabalho”, “vai continuar mexendo comigo”… Atravessei o bloqueio e fui direto pedir socorro a um grupo de seguranças do metrô, que prontamente abordaram o indivíduo e tentaram me proteger da exposição. Num canto reservado registraram a ocorrência e tentaram me acalmar com um copo d’água. Me informaram sobre os procedimentos necessários para o registro criminal da ocorrência, que faz muita gente desitir de prosseguir com a queixa. Certa de que, como mulher, é minha OBRIGAÇÃO impedir que pessoas nojentas como esse homem fiquem livres para ameaçar, agredir ou pior, estuprar outras mulheres, decidi prestar queixa.
Assim que meu marido chegou, fomos à delegacia da Polícia Civil na estação Barra Funda, onde fiz meu depoimento e declarei interesse em prosseguir com o processo contra o agressor, que por sua vez, declarou que fora um outro “HOMEM NEGRO” que passava e que mexeu comigo, que ele tinha apenas pedido uma informação. Foi encontrado no bolso do agressor uma chave de fenda, embora ele não tivesse nenhuma maleta de ferramentas e sequer trajava roupas de trabalho. Também não estava com RG ou qualquer outro documento de identificação.
O processo vai correr, vou ter que repetir todas as barbaridades que esse energúmeno me falou para o juiz, assim como tive que repetir para a autoridade de plantão e para o escrivão. Serei exposta novamente ao estresse enorme que passei hoje, irei chorar novamente o tanto que chorei hoje na rua, na delegacia e o tanto que estou chorando agora. Terei que passar por todas essas lembranças horrorosas para incriminar esse sujeito do qual só consegui o número do RG e a fisionomia que NUNCA vai sair da minha cabeça.
Não fui estuprada, não sofri lesão corporal, não voltei a encarar o agressor, mas isso não faz as coisas serem mais fáceis pra mim. Foi terrível. Tive medo por ser mulher. Nunca antes na minha vida tinha desejado tanto não ser.

Se você ri dessa piada, você é um completo imbecil.
Ainda na delegacia, um segurança comentou – extra oficialmente – que o número de denúncias contra violência sexual nos trens e estações do metrô aumentou em 80% desde que o quadro da “encoxadinha do Zorra Total” foi ao ar. Espero que seja a consciência das mulheres em denunciar que tenha aumentado e não o número de agressões. À Rede Globo de Televisão deixo meu repúdio, não só a este caso de violência contra a mulher em sua programação, mas contra TODA a propaganda sexista exaustivamente veiculada por este canal de televisão. VIOLÊNCIA NÃO É HUMOR. ENCOXADA NO METRÔ NÃO PODE SER TRATADO COMO PIADA.
Aos governadores de São Paulo, que fique registrada minha indignação contra a completa falta de segurança no entorno das estações de trem, metrô e nos pontos de ônibus. Contra a superlotação do transporte, contra a forma como as mulheres são tratadas no transporte coletivo.
Aos legisladores, que consideram que AMEAÇA DE ESTUPRO é um crime de MENOR POTENCIAL OFENSIVO e que por isso permitem por lei que os agressores possam responder em liberdade: vocês estão deixando estupradores em potencial soltos e livres para ameaçar e agredir mulheres que podem ser suas filhas, esposas, mães, irmãs. Aliás, menor potencial ofensivo para quem, caras pálidas? Eu nunca mais vou passar a pé naquela região, minha saúde emocional está completamente comprometida, me senti humilhada e impotente. Eu sou cidadã, eu sou mulher, eu sou vítima de uma sociedade que acha que quem usa um vestido rosa curto pode ser escorraçada e desrespeitada.
NÃO PODE! Hoje eu parecia uma “irmãzinha”, de vestido nos joelhos e camisa de manga por baixo, mas mesmo que estivesse de mini saia e top, NADA NEM NINGUÉM tem o direito de me desrespeitar ou me ameaçar porque sobre o meu corpo e as minhas roupas EU DECIDO. É meu espaço, é meu direito e ninguém pode tornar a mulher culpada por sua liberdade quando a mesma sofre uma agressão.
MULHERES: denunciem todo e qualquer caso de violência. Encoxada no metrô é crime. Assédio sexual é crime. Não interessa que roupa você está usando ou em que rua você está passando. Não importa se você é liberal ou conservadora, não importa se você é virgem ou não. Não importa com quantos caras você já dormiu. NADA JUSTIFICA VIOLÊNCIA. Seu corpo é seu e só você deve ter poder sobre ele.
Pra finalizar, para todos vocês que perseguem mulheres nas ruas com suas piadinhas infames, que encoxam no metrô, que acham que a mulher que se expõe é culpada pela agressão que sofre: torço muito para que seu pênis apodreça lenta e dolorosamente.
*** UPDATE: O Sindicato dos Metroviários de São Paulo entrou com um pedido de exclusão do quadro Metrô Zorra Brasil, em outubro:
“O quadro banaliza, de forma sarcástica, a situação de violência a que estão expostas as milhares de usuárias de metrô todos os dias”
O protesto foi apoiado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres, que comunicou em carta aos metroviários:
“Parabenizamos a iniciativa e endossamos a necessidade de ações como esta que visam desconstruir discursos de uma cultura que, até camuflada no humor, perpetua a violência simbólica contra as mulheres”
Ainda assim, mesmo com a manifestação dos próprios funcionários do metrô, que acompanham diariamente o assédio sofrido pelas mulheres que utilizam este transporte, não foi retirado o quadro do programa. A Rede Globo alegou:
“O Zorra Total é um programa humorístico cujos quadros trazem situações fictícias dissociadas da realidade. O quadro em questão não incita qualquer comportamento, muito menos a violência contra a mulher. Seu objetivo é entreter o telespectador, no que, acreditamos, é bem-sucedido. A TV Globo se orgulha de ser um veículo de comunicação que sempre defendeu os direitos da mulher em campanhas de conscientização, no seu conteúdo jornalístico e nas ações de responsabilidade social veiculadas em suas obras de dramaturgia.”
Já estamos em dezembro e o quadro ainda está no ar, com especulações de virar um programa exclusivo. Ou seja, TODO esse papo de “defender os direitos das mulheres” é demagogia pra boi dormir. Tem audiência, a galera gosta, é um dos programas mais compartilhados e assistidos no youtube, a piada pegou. DUVIDO que a Globo esteja realmente interessada na segurança das mulheres, seus executivos querem audiência, independente da qualidade dos programas. Banalizaram um assunto sério e ainda tem coragem de dizer “relaxa, é só piada”.
*Considerações:
Ao contrário do que algumas pessoas escreveram nos comentários, não tenho NENHUM interesse em me “fazer de coitadinha” escrevendo este post (!!! – sim, disseram isso!), e acho que isso ficou bem claro pra maioria. Tive muita sorte em não sofrer agressão física ou estupro e por encontrar o agressor imediatamente e o mesmo ser levado a julgamento, mas EM NENHUM MOMENTO eu acho que tive ~sorte por conseguir denunciar~ pois esse é um DIREITO meu, garantido por lei, e é um DEVER do Estado, e se o mesmo se mostrasse negligente, como aconteceu com muitas garotas, eu teria que encontrar outro meio de denunciar. A tentativa de fazer a mulher desistir do processo, mesmo na delegacia, é ENORME, mas são desistências que fortalecem esse tipo de prática covarde. Não desistam, garotas! E joguem a merda no ventilador, sim, exponham suas feridas, sim, porque a não existência de agressão física não significa que não houve trauma, abuso, prejuízo. Para todos que acham que eu exagerei no meu relato: tem novelinha na Globo cheia de ilusão e contos de fada, não precisam perder tempo lendo “draminhas” de quem “nem sofreu nada, no fim das contas”. Achar que a vida é assim mesmo e essas coisas acontecem e que eu não sou melhor do que ninguém pra me sentir tão mal é o que faz meninas serem estupradas por parentes por anos, sem fazer nada, inclusive. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, já dizia minha mãe.
* Agradecimentos:
Agradeço de verdade a todos que me enviaram e-mails, retuitaram, curtiram no facebook ou deixaram comentários de apoio. O mais importante é dar visibilidade para um assunto que é completamente ignorado ou, no pior dos casos, tratado como humor pelo maior veículo de comunicação do país. Uma cidade melhor será feita de cidadãos melhores e isso que vocês estão fazendo também é cidadania. Valeu, pessoal!