Sobre como a vida me ensinou a perder - MISTURA URBANA

Sobre como a vida me ensinou a perder

Planejar uma viagem inclui uma dose de consciência. Uma sobriedade diante do que pode sair errado. Completei quinze anos há alguns dezembros e em janeiro viajei para um intercâmbio no Canadá. Acumulei, durante a organização, receio sobre a família que me hospedaria, medo de não conseguir me expressar no idioma ou de me perder pelos aeroportos e pela cidade.

O problema aconteceu justamente com algo que eu jamais havia cogitado. Cheguei na gelada Montreal em primeiro de janeiro, feriado. No desembarque, eu apenas assistia o desfile das bagagens no carrossel. As pessoas em minha volta saiam aos poucos. Minutos depois olhei para os lados e não vi ninguém. Sobrei.

A alternativa foi registrar a perda na mala. Uma burocracia. Cor? Preta. Mas preta como? Preta, oras. E o tamanho? Mais ou menos assim – mostrando com os braços. A atendente abria os seus braços, bem menores que os meus. Não, os meus braços, não os teus. E o tecido? E eu lá sei explicar o tecido em inglês!?

Tamanha foi a confusão até que pude rumar para casa. Casa que eu nem conhecia. Família que não era a minha. Na rua só via frio, neve, silêncio. Ausência. Ausência de pessoas, ausência de mim. Lojas fechadas. O ano virando e eu sem poder comemorar. Com uma muda de roupa na sacola de mão, sabe-se lá por quanto tempo.

Em casa, conheci os pais, as três crianças e fui para o quarto. Cansada?, me perguntaram. Fiz que sim com a cabeça. Daria muito trabalho explicar que sono, exaustão ou qualquer forma de cansaço era muito pouco. Eu estava desesperada! E se nunca encontrassem a minha mala?  E se eu tivesse que comprar todas as roupas de novo? E se eu tivesse que voltar para o Brasil antes do tempo? Nessas horas, as possibilidades não param de atacar a nossa mente.

Bem mais tarde, a campainha tocou. Pelas escadas vi subindo uma mala. Peito batendo forte. Alegria plena. Devagar, me aproximei e constatei com meus próprios olhos: a mala não era a minha. Teriam me enviado a bagagem errada? Como eu faria com todos os pertences de outras pessoas? E as minhas coisas estariam no Japão, China, Vietnã?

Empurrando a mala subiam duas meninas. O pai da família se virou para mim e, em um inglês manso, disse: são brasileiras, uma delas vai morar aqui também. Paulistas, as duas foram a alegria do meu dia. A sensação é de eu estava um pouquinho mais perto de casa.

Na mesma noite, os canadenses comemoraram a virada de ano. A família dos meus “pais” vibrava feliz, com violão, músicas e comida – muita comida. Eu não estava exatamente ali. Pensava em todas as decisões que me levaram a, menina, fazer o intercâmbio, sair da zona de conforto, do calor da minha família e amigos. E, ao mesmo tempo em que me sentia sozinha, eu estava completamente viva.

Não durou muito mais tempo o meu desespero. Na manhã seguinte, enquanto tomava café com minha companheira brasileira, a campainha tocou.  Gerindo ansiedade com ceticismo, corri à porta. Minha mala era quem subia pelas escadas. Intacta, carregava todos os meus pertences – das calcinhas aos presentes que eu ofereceria à família que me hospedava.

A história terminaria aí se na volta o mesmo não tivesse acontecido.

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2 Comentários

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  1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    lila / Responder
  2. nossa,assustei porq to qerendo fazer intercambio depois fiqei aliviado por vc ter conseguido,no final tudo da serto!!

    bruno / Responder

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