Menos música em São Paulo - MISTURA URBANA

Menos música em São Paulo

São Paulo não está na lista dos lugares que mais me fascinam neste mundo. Tampouco é uma das cidades que me fazem suspirar de saudade, ou para onde desejo fugir quando o estresse diário me domina. Porém, há algo lá que me encanta: a terra da garoa transborda cultura.

Há alguns anos, em uma visita à cidade, encarei a aventura de ir pela primeira vez de metrô à Estação da Luz visitar a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu da Língua Portuguesa. A surpresa veio, no entanto, através da arte que encontrei antes das grades dos museus.

Na Estação da Luz, antiga estação de trem, paira um piano – sozinho. Fica ali, estático, para que os caminhantes o toquem. A experiência de avistar gente do povo fazendo carnaval com os dedos enriqueceu meu dia – mais do que qualquer quadro na parede seria capaz.

Nas viagens seguintes à Paulicéia Desvairada, visitei novamente o piano. Avistava, de longe, e ia devagar caminhando em sua direção. Um momento sagrado, individual e coletivo. Quando o alcançava, parava por alguns minutos para contemplar o povo, que ia e vinha. Até que alguém chegava, sentava e iniciava a música.

Triste foi a notícia com a qual me deparei há pouco tempo: os pianos colocados nos metrôs paulistas estão sem manutenção. Após testes realizados por uma pianista, constatou-se que há cordas quebradas, problemas no pedal e nos abafadores. O conserto dos itens será feito através de um edital – o que provavelmente demorará.

São Paulo chora. E eu choro também. Planejei para os próximos dias um retorno à cidade. Tenho pouco tempo para decidir se visito o gigante instrumento e divido com ele o meu silêncio ou se me mantenho distante, ouvindo para sempre a sua música alegre.

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