Um convite a literatura - MISTURA URBANA

Um convite a literatura

Como já dizia um antigo provérbio chinês, “Aquele que não gosta de ler é igual ao que não sabe ler”. Acho fantástico esse provérbio numa época em que a educação brasileira enfrenta uma crise, para superar seu deficit educacional. O sistema educacional brasileiro está entre os maiores do mundo, com 56 milhões de estudantes e material educativo avaliado em 2 bilhões de dólares.

É, até, uma ironia termos tanto investimento externo em nossa educação e estarmos entre os piores países educadores do mundo. O Brasil, como já mencionei, carece não apenas em investimentos mas também de incentivo e autoridade na educação, para superar essa crise.

Uma pessoa alfabetizada não é propriamente uma leitora. A leitura é uma arte, que deveria ser ensinada dentro de casa, antes que o fosse nas escolas primárias.

O Brasil aflora talentos na escrita, a cada ano. Martha Medeiros, Chico Buarque e Drummont estão, frequentemente, na lista dos 10 mais vendidos. Mário Prata e Luis Fernando Veríssimo lançam obras de arte inebriantes com uma periodicidade impressionante. Eduardo Sphor, por ser filho de piloto de avião, achei que fosse seguir a linha de Saint-Exupéry, mas publicou um único livro – “A Batalha do Apocalipse” – que conquistou a primeira posição entre os mais vendidos em 2010.

Achei ótima a iniciativa do jornal “A Folha de São Paulo”, que lançou, há uns 6 anos, os clássicos da literatura e os disponibilizou nas bancas. A propaganda sugere que o leitor (ou suposto) diminua o tamanho da televisão, para que caibam mais livros da coleção na estante.

Ela fez-me lembrar de outra propaganda fantástica, lançada, nos anos 60, por Charles Piccirillo e Monte Ghertler (ambos da agência Doyle Dane Bernback). É claro que eu não era viva, mas lembro-me do anúncio que li em um livro. O objetivo era promover a Semana Nacional da Biblioteca. O título era o alfabeto desenhado em letras minúsculas, assim:

“abcdefghijklmnopqrstuvwxyz. Em seguida, vinha o texto:

Na biblioteca pública, essas letras foram arranjadas para fazer você rir, chorar, amar, odiar, encantar-se, refletir e compreender. Nas mãos de Shakespeare, elas se tornaram Hamlet. Mark Twain talhou, com elas, Huckleberry Finn. James Joyce as desdobrou em Ulysses. Gibbon as apertou em Declínio e Queda do Império Romano. Milton nelas lapidou Paraíso Perdido. Einstein juntou números e sinais (para economizar tempo e espaço) e com elas fez a teoria geral da Relatividade.”

Não é magnífica? Sugeria a publicitários e a algum responsável no Ministério da Educação (aliás, o Brasil tem ministro da Educação?) que “remodelassem” essa ideia e fizessem algo, como:

“Nas mãos de Machado de Assis, elas se deleitaram em Dom Casmurro. Guimarães Rosa as iluminou em Grande Sertão – Veredas. Euclides da Cunha as consagrou em Os Sertões. Padre Antônio Vieira as santificou em Sermões. Carlos Drummond de Andrade nelas embaralhou No meio do caminho. Castro Alves as poetizou em O navio Negreiro…”

Entre tantos outros que enalteceram a literatura brasileira. O problema não está, basicamente, em “o que ler”, e, sim, implícito em “como fazer, para que leiam”. Uma casa sem livros é uma casa sem janelas. E, parafraseando Cícero, se tiveres uma biblioteca como jardim, tens tudo. Somos filhos de um Brasil que produziu clássicos conhecidos mundialmente. Contudo resta-nos, como consolo, a ironia deixada por Shakespeare: sua filha também era analfabeta.

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