Seja você o presente - MISTURA URBANA

Seja você o presente

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É isso que eles aprendem

Ao ver o feed de notícias do Facebook nesta manhã, encontrei uma matéria do Bom Dia Brasil, compartilhada pela Revolução da Colher em Sampa: Bichinho de estimação é um dos presentes mais pedidos neste Natal. Estava cozinhando um post sobre este assunto há algum tempo, mas “mãe-de-cachorro” e vegetariana que sou, esperava um momento pra que o texto fosse mais atrativo que encarado como utopia-catequizadora-de-protetor-vegano-mala, como a maioria diz, entredentes. Até porque, sim, este assunto você já deve ter lido em outros lugares. E o post é longo. E por cachorro leia-se ‘animal de estimação’.

Há uns dois finais de semana visitei alguns parentes em Guarulhos e na volta, próximo à uma feira de domingo, quase chegando na Fernão Dias pela Vila Galvão, um enorme banner amarelo nos muros de uma residência anunciava: VENDEM-SE FILHOTES DE (uma raça de cachorro). Infelizmente chovia, eu estava no carro e não tirei fotos, mas a idéia de uma fêmea, ou mais, subjulgada por toda a vida a produzir filhotes pra satisfazer caprichos de admiradores de sua raça – e enriquecer seu maior algoz: o criador – fez todo o almoço daquele domingo querer sair do meu estômago e eu, do mundo.

Enriquecer??? Como assim???“, alguém pode questionar. Se não acredita, vá até o Mercado Livre e procure por FILHOTES + RAÇA. Com certeza serão encontrados desde o popular e dócil Golden Retriever, a uma bagatela de R$ 1200,00, ou o ‘fashioníssimo’ Pug, por R$ 1800,00. Pra quem não tem problema em gastar, tem também os bulldogs, que na versão francesa pode ser encontrado por R$ 2500,00. Ah! E todos anunciados com suas devidas certificações de origem. Considerando que em 7 anos uma única fêmea pode se multiplicar em até 7000 outros cachorrinhos, sim, eu acredito que exista muito mais gente interessado em enriquecer sobre a exploração de outra vida do que gente querendo ver olhinhos de crianças brilhando no Natal ao apertar seu mais novo presentinho. Mais que isso, infelizmente eu acredito que é ainda pior: uma inescrupulosa indústria de filhotes.

O comércio de animais gera exploração, descarte de animais defeituosos ou doentes – deficiências geralmente ocasionadas por cruzamentos consaguíneos – abandono de animais que não foram vendidos, câncer de mama nas fêmeas reprodutoras, abandono de animais pelos compradores quando chegam à fase adulta, mais animais nas ruas das cidades, superlotação de animais nos abrigos, doenças e pragas urbanas e ENRIQUECIMENTO dos exploradores.

E a raça, o pedigree?! Adotando um animal SRD eu não tenho a certeza sobre suas características comportamentais…“. Também já ouvi muito isso. A profissional entrevistada pelo Bom Dia Brasil na matéria citada acima tem opinião parecida, inclusive recomenda raças específicas para presentear cada tipo de pessoa. Uma grande bobagem.

É fato que animais menores tem latido mais estridente e podem ser mais agitados e até aparentemente agressivos, mas isso é natureza (conhece? já ouviu falar?), assim como animais com fucinho achatado são mais preguiçosos e cansadões, e os peludos não precisam de roupinha. Obviamente se a pessoa quer um labrador ela já viu esse cachorro em tamanho adulto por aí, é ininteligível que se compre um filhote desses para um apartamento e se impressione com a transformação tão rápida do tamanho do animal. Ou que se acredite no que a doutora Valéria diz sobre pitbulls, que podem machucar crianças por seu tamanho e força.

A raça geralmente é um critério muito bem estabelecido para o comprador adquirir o animal, porque raças entram e saem de moda. Lembram da Lessie, de quantos collies se viam por aí até os anos 90? Que Pug só foi conhecido pelo povão depois de MIB? Que qualquer um que tenha um vira-latas faz questão de dizer que é “mistura de pastor belga com perdigueiro dos alpes”? Raça é a marca com a qual queremos etiquetar os cachorros. E cachorro de criador que coloca placa na frente de casa anunciando seu negócio é a versão pirata dessa marca.

Cachorro não foi feito pra ser pelúcia de criança. Se seu filho aperta um animal, o animal pode se sentir incomodado e machucar a criança, independente da raça. E sabia que Dachshund, Lhasa Apso e Poodle Toy estão entre as raças mais agressivas? Mas se a família já insere um animal em casa num contexto de consumismo e posse, como não esperar que o animal seja tratado como objeto por essa criança? No fim das contas isso tudo depende muito mais da educação que se dá. Às crianças e aos animais.

Tenho duas cachorras vira-latas. A Dolores e a Greta. Ambas foram adotadas. A Dodô foi escolhida já com dois anos através de uma foto no site do Quintal de São Francisco, fomos até Parelheiros buscá-la. Era completamente medrosa e arisca, minha casa ficou com cheiro de cachorro tenso por semanas. Meses depois meu sogro encontrou a Gretinha bem novinha ainda, vagando faminta por um estacionamento em Jandira já havia dois dias, mas soube que ninguém se aproximava porque ela ‘era pitbull’. Só cabecinha, osso e amor. Não teve como deixá-la e não teve como não ficar com ela. A Dolores aprendeu com a Greta a perder o medo e confiar nos humanos, a Greta adotou a Dolores como irmã mais velha.

 

A foto do anúncio da Dolores no site e a Greta, assim que chegou de Jandira.

A Dolores já mordeu uma criança  que colocou a mão da rua pra dentro da nossa casa, pelo portão, e uma outra, filha de amigos, que apertou demais enquanto ela queria fugir pro canto dela. No segundo caso ela levou bronca pela agressão, mas a culpa era da criança que foi invasiva. A PITBULL (oooooh!) Greta nunca atacou ninguém, é um bebezão grande, extremamente carinhosa que até cansa. E por mais que ela adore brincar de morder e pular na gente e tenha mais força que eu, com meus primos e sobrinhos ela é cuidadosa e controlada.

Nenhuma delas tem raça e não chegaram como presente. Nós escolhemos e quisemos trazer essas duas vidas pras nossas vidas, pra nossa família. Mesmo sem ter comprado nós somos responsáveis por sua alimentação, carinho, moradia e educação. E é pra vida todas delas. Se escolhermos uma outra residência, o espaço pra elas é determinante na escolha, se vamos viajar temos que programar as férias delas também. Dá trabalho, tem sujeira, tira o sono quando alguém passa na rua de madrugada e elas insistem em latir. Mas eu não voltaria atrás. Elas alegram minha vida e me enchem de amor. Minhas companheiras.

Hoje a gente é feliz! =)

Deixo, então, meu apelo para não se comprar animais como presente neste final de ano. Conheça abrigos, procure animais que tenham mais a ver com você, não ceda ao primeiro filhote espertão do canil que vem correndo fazer graça pra te conquistar porque ele pode ser agitado demais pra você, faça as contas das suas despesas, observe seus prazos contratuais de aluguel pra não ter que “doar animais por falta de espaço”. Ensine. Sua família, seus filhos, as pessoas que frequentam sua casa e os animais precisam aprender a melhor forma de conviver e isso, às vezes, leva tempo. Animais não são objetos, são vidas. Seja VOCÊ o presente deles.

 

 

Edição do dia 16/12/2010

16/12/2010 08h25 – Atualizado em 16/12/2010 08h48

Bichinho de estimação é um dos presentes mais pedidos neste Natal

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