Guia de Culinária Ogra - MISTURA URBANA

Guia de Culinária Ogra

André Barcinski, crítico de Cinema e Música na Folha de SP, divulgou em seu blog A-wop-bop-a-loo-bop-a-lop-bam-boom! uma idéia bastante criativa: criar um Guia de Culinária Ogra. Ele explica: “Seria um livro com dicas de restaurantes de onde se sai carregado.” Além da comida farta, diria que os restaurantes elegidos têm um lado… excêntrico, para ser condescendente com o clima tragicômico.

Dá uma olhada no saboroso aperitivo que ele destila:

Galinhada do Bahia (Rua Azurita, 46, Canindé)

Encravado nos fundos de uma vila ao lado do estádio da Portuguesa, no Canindé, fica o mítico restaurante, tocado há 24 anos pelo simpaticíssimo Raimundo Nonato, mais conhecido por “seu Bahia”.

“O Bahia”, como é conhecido, fica no topo da minha lista porque é o único restaurante de onde eu vi uma pessoa sair carregada – literalmente. E foi uma celebridade: Dan Peters, baterista do Mudhoney, nocauteado por uma combinação explosiva de buchada de bode, carne seca com mandioca, baião de dois e incontáveis “Coquinhos”, uma cachaça criminosa curtida por 15 dias dentro de um coco gelado.

Para dar uma idéia da fartura do Bahia, basta dizer que a pimenta é servida num pote de 5 litros e o bule de café tem meio metro de altura. Juro.

A especialidade da casa é a galinhada – à cabidela ou ao molho pardo – mas a carne-de-sol com macaxeira também é de outro mundo. O pirão é tão grosso que serve para fazer reboco de parede. O prato acompanha deliciosas porções de vegetais (quiabo, maxixe, inhame, abóbora), baião-de-dois, miúdos (pé de galinha, moela, fígado) e, para os mais aventureiros, uma buchada do tamanho de um pequeno travesseiro.

Enfim, uma tarde na Galinhada do Bahia é uma experiência inesquecível. Mais inesquecível ainda é sair de lá e pegar um joguinho da Lusa na sequência, para fazer a digestão. Só não recomendo marcar nenhum compromisso pelas 24 horas seguintes.

Chi Fu (Praça Carlos Gomes, 168, Liberdade)

O Chi Fu é a prova viva de que um restaurante pode sobreviver – aliás, triunfar – tratando o cliente como lixo. Antes considerado um defeito do local, a grosseria e falta de educação das garçonetes já virou uma de suas marcas registradas. Se você não falar mandarim e não vier dos cafundós da China, prepare-se para ser colocado numa mesa ao lado do banheiro masculino ou para levar broncas do tipo: “O quê? Você vai pedir ISSO?!”

Os dois trunfos do Chi Fu, no entanto, são poderosos: sua comida e seu cardápio. A comida é fantástica e variada. Os mais conservadores podem pedir gigantescas porções de chop suey, lombo agridoce, frango xadrez ou yakisoba. A clientes mais heterodoxos, no entanto, recomendo aventurar-se pelos inacreditáveis pratos de barbatana de tubarão, tripa de porco, râ com nirá, porco com bambu (feito com pedaços de bambu mesmo, não com o broto) e barriga de peixe com jiló.

Mas o que realmente faz a minha cabeça é o cardápio, escrito num idioma próprio e curiosíssimo. Que tal “baba tana com barrica de pexie”, “jiró com nabu verde”, ou “macalão com camarrão”?

PASV
(Av. Sâo João, 1145, Centro)

Comer no PASV é a sensação mais próxima de almoçar na casa da avó. Lá você é tratado como uma criança mimada: “Quer mais uma farofinha, meu filho?” “Tá bom o bifinho? Vai mais uma cebolinha frita em cima?”
Frequento o PASV há uns 20 anos e o lugar parece congelado no tempo. Só tem duas garçonetes septuagenárias, duas velhinhas fofíssimas chamadas Dona Glória e Dona Maria. Como eu nunca sei qual é a Glória e qual é a Maria, chamo as duas de Glória Maria e tá tudo bem. No balcão, seu Pepe e seu Manolo também são uma simpatia.
O PASV é um botecão com um cardápio imenso. Tem carnes, massas, peixes, sopas, de tudo. Tem uma grelha de onde saem uns bifes suculentos.
Mas o carro-chefe são os pratos espanhóis. Polvos, lulas, pucheros… E é o ÚNICO lugar do mundo onde você pede uma paella para viagem e eles deixam você levar o panelão para casa. Eles só põem um plástico fino em cima para não esfriar e lá sai você andando pela Avenida Sâo João com um tacho fumegante de paella. Da última vez que fiz isso, nosso carro ficou cheirando a açafrão por três anos.

Rota do Acarajé (Rua Martim Francisco, 529, Santa Cecilia)

É bem conhecido na região de Santa Cecília, mas eu só comecei a freqüentar há uns dois anos.
Comida baiana, com uns acarajés sequinhos e um sarapatel pegajoso que mais parece um Vedacit. O bobó de camarão é sensacional também.
Agora, o que me emociona mesmo no Rota são as sobremesas. Já fui a pé até lá (uma meia hora de casa) só para matar um pudim de tapioca.

Bueno (Rua Galvão Bueno 458, Liberdade)

Ao lado do tradicionalíssimo – e delicioso – Aska, que serve um dos melhores lamens da cidade, tem uma porta preta, sempre fechada.
Pode entrar sem medo. Lá fica o Bueno, um restaurante japonês especializado em comida de lutadores de sumô.
Duvida? Então olha o tamanho do dono do lugar atrás do balcão e confira. É Fernando Kuroda, um ex-lutador de sumô.
A especialidade do Bueno são as caldeiradas, mas sempre tem umas iguarias expostas no balcão, e vale a pena provar todas.
Eu adoro a língua na chapa com arroz, e o bim bim pat, espécie de mexido com arroz, ovo cru, carne e pimenta, servido num prato de pedra.


Mais seu Bahia: o estranho caso da buchada explosiva

A buchada do Seu Bahia, como já comentei aqui, parece um travesseiro. Pra quem nunca viu, a buchada é costurada, com barbante mesmo, para segurar todo o recheio de miúdos. Só que o recheio é tão compactado dentro da iguaria que, ao cortar o barbante, os miúdos costumam voar para fora do prato, como um tiro de bazuca.
Uma vez, estava com meu amigo Paulo Cesar Martin no Bahia e vimos um cliente dar um show de técnica: o sujeito botou a buchada INTEIRA na boca, e ficou mastigando por uns 15 minutos. De repente, tirou do canto da boca a ponta do barbante, e puxou todo o fio. Só faltou usar de fio dental no fim. Elegância é isso.


A garçonete poliglota do Rei dos Reis

Ao lado do Chi Fu, na Liberdade, fica o Rei dos Reis. E se você acha que é maltratado no Chi Fu, precisa conhecer o Rei dos Reis. Basta dizer que eu parei de ir lá depois que a garçonete simplesmente mentiu para nós, dizendo que a melancia tinha acabado, para logo depois trazer duas bacias da fruta para uma mesa do nosso lado (só de chineses, claro).
O staff do Rei dos Reis não falava uma palavra de Português. Uma vez pedi um camarão com nirá e a mulher trouxe macarrão com frango. Você pedia um prato e tinha de torcer para trazerem o certo.
Em outra ocasião, fui ao Rei dos Reis com uns amigos. Lá havia uma garçonete que carregava o filho de meses de idade nas costas (eu vi esse moleque crescer lá dentro, coitado, hoje deve estar acorrentado na cozinha descascando batatas). Pois bem, a moça chegou na mesa e perguntou: “E bebida?” Eu respondi: “Nada não, obrigado!”. E ela: “De laranja???”

A simpatia da hostess do Champion

O Champion é um chinês que fica na Rua da Glória. Como a maioria dos chineses autênticos da Liberdade, odeia servir brasileiros e faz de tudo para você sumir. As mesas são grandes, e os garçons sempre espremem três ou quatro famílias de brasileiros na mesma mesa, enquanto um casal de chineses fica sozinho em mesas onde cabem 16.
Uma vez, fui com minha mulher no Champion. Quando chegamos perto da porta, a hostess entrou na nossa frente, apontou para um restaurante do outro lado da rua e gritou: “Aqui não!!! Sai!!! Vai pra lá!!!”
Meses depois, a Vigilância Sanitária achou um caranguejo vivo andando dentro do banheiro do lugar.

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