Clandestino / Ilegal - MISTURA URBANA

Clandestino / Ilegal

Acabo de chegar do show do Manu Chao, na Zona Norte de São Paulo. Confesso, estou extasiada! O convívio urbano é muito cansativo pra mim e esse domigo me inspirou.

Foi lindo ver muitas pessoas num bairro bem afastado do centro, que meu marido conhecia graças ao tempo de bandas adolescentes da Zona Norte/Oeste e o GPS insistia em indicar um caminho diferente. Foi lindo ver uma quantidade absurda de jovens, – adoraria saber a expectativa de pessoas presentes, muita gente mesmo – gente da região e pessoas que vieram ver a festa.

Era aniversário de 5 anos do Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso. Fecharam a rua, os comerciantes locais baixaram os toldos para atrair os clientes nem que pela sombra, gente de todos os cantos da cidade procuravam uma vaga pelos arredores do Cemitério da Vila Nova Cachoeirinha. Como não havia vaga suficiente, foi anunciado que os veículos entregues aos flanelinhas seriam multados.

Cerveja de garrafa gelada-trincando no copão a R$ 5,00, piercings, alargadores, dreadlocks, turbantes e tatuagens estampando o cenário. Camisetas e acessórios contestando proibições, peles expostas ao calor senegalês.

Foi show do Manu Chao. Um cara que eu curto, que faz música-de-latino, de tocar em fórum social. Também teve show pago na quarta-feira, por R$ 50,00. Um rolê bem fefeleche, como se diz por essas bandas… Mas saí cedo. Porque o calor era demais e porque eu ouvia mais a conversa do grupo de pessoas ao meu lado do que a música do cara.

Valeu, me diverti demais e fiquei muito feliz de ver tanta gente bonita, à vontade, lotando um lugar longe e mostrando pra prefeitura e para os organizadores que a cidade não é que que eles pensam que é. Que as pessoas tem sede de cultura e que coisas diferentes, em lugares afastados, enchem tanto ou muito mais que festas no centro.

Sempre iremos superar as expectativas. Tá na hora de pensar em São Paulo como uma metrópole desorganizadamente crescida que precisa de uma solução. O show de hoje merecia uma qualidade de som muito melhor, merecia uma infraestrutura muito melhor em relação a banheiros químicos e coleta seletiva – não encontrei um ponto de coleta de qualquer tipo de lixo.

Deixo aqui meu apelo, por mais piegas que pareça, aos organizadores de eventos e, principalmente, ao senhor prefeito Gilberto Kassab: acreditem no potencial dessa cidade. O que tocar aqui, vai encher. Se chover aqui, vai encher. Se precisar andar aqui, vai encher. Precisamos de mais PA, “libera o mosh, aê!”, como se diz no orkut.

Pelo quanto é pago pelos serviços públicos nessa cidade, merecemos muito mais. E não é planfetagem pseudo-socialista que equilibra a balança. É a cobrança e a participação nesse tipo de evento, é não se conformar em pagar um ingresso ridiculamente caro por um show estruturalmente ruim e culturalmente muito importante enquanto artistas de quinta categoria ganham incentivos fiscais para bancar shows em rodeios.

Esse é um pensamento totalmente meu e não reflete a opinião dos organizadores do coletivo Mistura Urbana. Mas pensem sobre isso. Por que em São Paulo as coisas funcionam assim? Por que tudo é tão caro e cultura é tratada como um produto elitista AINDA? Por que sermos tão provincianos?

Como dizem por aí: busquem conhecimento.

(Aceito fotografias de fotógrafos presentes para ilustrar o post. Infelizmente, esqueci minha câmera.)

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3 Comentários

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  1. Perfeito!

    juliana / Responder
  2. Demais Ariane… Me senti lá, aliás gostaria muito de ter visto esse show também :))

    Jorge Patrocinio / Responder
  3. […] que li o artigo da colaboradora Ariane Corniane sobre a diferença do show pago do Manu Chao com o show gratuito em São Paulo fiquei me fazendo a mesma pergunta: Porque em São Paulo as […]

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